segunda-feira, maio 31

Ler ficção


«Porque é que o ser humano gasta tanto tempo a ler ficção, se daí não resulta nenhum óbvio benefício evolutivo?». Podemos dizer que lemos ficção, simplesmente, porque ela nos dá prazer, nos comove, etc., mas isso não responde à biologia evolucionária. As respostas tendem a ser utilitárias – lemos para conhecer melhor os outros, o que tem uma utilidade darwininana – ou circular: lemos porque a ficção activa alguns «centros de prazer».

Wood, James, A Mecânica da Ficção, Quetzal 2010

Obras incompletas


Grandes obras da literatura foram deixadas incompletas com a visita repentina da velha ceifeira. Seja lá quem for que mande vir a morte, de uma coisa temos a certeza, é um péssimo critico literário:

Almas Mortas, Nikolai Gógol

The Mystery of Edwing Drood, Charles Dickens

Dom Juan, Lord Byron

Denis Duval, William Makepeace Thackray

Súplicas Atendidas, Truman Capote

Autobiografia, Benjamin Franklin

The Landleaguers, Anthony Trollope

Esposas e Filhas, Elizabeth Gaskell

O Último Magnata, F. Scott Fitzgerald

Sanditon, Jane Austen

Ilhas Na Corrente, Ernest Hemingway

sexta-feira, maio 28

Prolongamento da Feira do Livro de Lisboa


Mais reacções ao protesto levantado por alguns livreiros, sobre o prolongamento da Feira do Livro de Lisboa, agora no blogue da editora Assírio & Alvim.

... o que é isso?


Há uns anos, a velocidade e o número de livros editados começou a aumentar exponencialmente, até que um livreiro chefe se lembrou de dizer: «Um livro que não venda em três meses, não é reposto.» E em pouco tempo, muitos autores deixaram de existir. A certa altura, alguém pergunta: «Então e os clássicos?» «Clássicos!?... o que é isso?» disseram.

Livreiro anónimo

Imbeciclopédia V


Quando estiver como eu estou hoje, muito irritado, colérico, apopléctico, literalmente passado com o azeiteiro do trânsito, que quase me passa a ferro hoje de manhã e ainda mandou vir, saiba qual o significado exacto dos nomes que eu lhe chamei e use-os, quando necessitar, de acordo com a sua vontade:
Por convenção um idiota é um individuo com um QI inferior a 20, um imbecil tem um QI entre 20 e 49, e um débil mental um QI entre 50 e 69. Os cretinos são, em termos específicos, pessoas com deformidades ou atraso mental causados por deficiências da tiróide; hoje em dia, o cretinismo é mais comummente chamado de hipotiroidismo congénito . «Idiota» deriva do grego idios, que tem o sentido de «próprio», «privado» ou «particular», como em «idiossincrasia». «Débil» vem do latim debile, que quer dizer «fraco» ou «frágil». «Imbecil» deriva da construção latina imbecille, que significa «sem bastão», no sentido de «frágil», sem sustentação. «Cretino» vem do francês crétin, cujo etimologia não está completamente esclarecida. Uma vez que se supõe que, originalmente, o vocábulo queria dizer «cristão», no sentido de «pessoa sagrada», o «cretino» pode ser um «tolo de Deus», por assim dizer. Ainda o mandei para um determinado sítio, mas não vou explicar a etimologia do nome do lugar, porque é muito conhecido.


Jaime Bulhosa

Todos os Homens São Mentirosos


Descobrir o que se pretendeu esquecer parece quase impossível, ao fim de trinta anos, num mundo no qual tudo muda excepto o que está escrito há séculos no Livro dos Salmos: «Todos os Homens São Mentirosos». Quando um jornalista francês se empenha em esclarecer a inexplicável queda do genial escritor sul-americano Alejandro Bevilacqua, do balcão da casa onde vivia, na Madrid ainda cinzenta de meados dos anos setenta, os testemunhos de aqueles que o conheceram serão a sua única via para a verdade. As duvidosas e diversas histórias da sua presumível amante espanhola, de um escritor argentino que garante ter sido o seu único confidente, do cubano que jura ter partilhado a cela com ele durante a ditadura militar argentina e, até, de um delator que já morreu, mas continua a informar desde o além, entrelaçam-se numa trama fascinante de que o leitor não conseguirá afastar o olhar até à última página.


edição: Teorema (Maio 2010)
título: Todos os Homens São Mentirosos
autor: Alberto Manguel
n.º pág.: 194
isbn: 9789726959144
pvp: 14.90€

quinta-feira, maio 27

Portugal, Salazar e os Judeus


Portugal, Salazar e os Judeus é um trabalho pioneiro de investigação histórica sobre os judeus perseguidos pelo nazismo, em Portugal, durante a Segunda Guerra Mundial. O Portugal de Salazar - que assistiu a tudo na posição privilegiada de país neutro, longe das grandes batalhas que selaram o destino da Europa e do mundo - não ficou imune ao confronto moral e ético suscitado pela questão judaica. A relação de Portugal com os judeus perseguidos foi ambivalente, composta de atitudes positivas e negativas. Esta obra analisa com rigor os principais protagonistas deste drama: Salazar, a PVDE, a elite social e política portuguesa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e seus representantes fora do país, os líderes da Comunidade Israelita de Lisboa, os representantes das organizações judaicas internacionais que actuaram em Lisboa e os refugiados. A investigação que lhe deu origem baseou-se em documentação portuguesa e nos arquivos israelitas.


Nota: Avraham Milgram é historiados do Museu do Holocausto Yad Vashem de Jerusalém

edição: Gradiva (Maio 2010)
título: Portugal, Salazar e os Judeus
autor: Avraham Milgram
tradução: Lúcia Liba Mucznik
formato: 15,5x23cm
isbn: 9789896163648
pvp:19.00€

quarta-feira, maio 26

Realidade ou ficção?


- Por favor, têm livros com leis?
- Sim, temos livros de Direito.
- Então eu queria um.
O livreiro, sem perceber bem o que o cliente pretendia.
- Refere-se à Constituição, ao Código Civil, ou a outro?…
- Sei lá, queria um livro com as leis que nós temos!
- Desculpe, mas não estou a entender, exactamente, o que pretende.
- Olhe, vou ser sincero, o que eu quero saber é se há alguma lei que proíba embebedar perus no Natal? É que um amigo meu diz que há!

Sobre pedidos de livros bizarros, já escrevi aqui e aqui. Mais tarde, verifiquei que, embora sejam insólitos, estes livros não fazem parte da ficção, mas sim da mais pura realidade. A propósito desta história, lembrei-me de fazer uma pequena pesquisa sobre leis bizarras, extravagantes. Vejam o que descobri:

Em Novembro de 2007, o canal televisivo UKTV Gold divulgou os resultados de um inquérito inabitual, feito a partir de uma pesquisa sobre leis antigas que, apesar de obsoletas, nunca foram revogadas. Os promotores da iniciativa criaram uma lista e pediram aos espectadores que votassem nas que consideravam mais absurdas. Eis aqui algumas das mais votadas:

- Em Inglaterra é ilegal morrer no edifício do Parlamento.
- Em França, é ilegal atribuir a um porco o nome de Napoleão.
- No Vermont, EUA, as mulheres têm de obter por escrito o consentimento dos maridos para poderem usar dentadura.
- Na Indonésia, a masturbação é punida com a morte por decapitação.
- No Bahrein, os médicos do sexo masculino só podem examinar os órgãos genitais de uma mulher através do reflexo de um espelho.
- Na Suíça, os homens não podem urinar de pé depois das dez da noite (lei que devia ser aplicada em Portugal, está aqui a dizer a minha colega.)
- No Reino Unido, é ilegal entrar nos edifícios dos parlamentos com uma armadura vestida.
- Em York, é permitido matar escoceses, desde que estes se encontrem dentro dos limites das antigas muralhas da cidade e estejam armados com arco e flecha.
- No Reino Unido, uma mulher grávida pode fazer as suas necessidades fisiológicas onde bem entender, nem que seja no capacete de um agente da polícia.
- No Japão, não há idade mínima legal para relações sexuais com consentimento.
-
Jaime Bulhosa

Peregrinação de Enmanuel Jhesus


Como fez com o Mapa Cor-de-Rosa em Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes reinventa, nesta Peregrinação de Enmanuel Jhesus, um espaço nobre da literatura portuguesa, de Fernão Mendes Pinto a Ruy Cinatti: o arquipélago malaio, imenso território de aventura, onde as caravelas chegaram há exactamente 500 anos. Passagens de História, memórias políticas, cadernos da guerrilha, tratados breves de diplomacia, debates teológicos, cenas de artes marciais, cartografia antiga, observações de botânica, notas de geologia, ritos de sagração, sortes tauromáquicas, até um fado perdido (por Amália?) lá em «Outramar»: abundantes são os tesouros que nos acompanham nesta viagem. Uma vertigem de personagens desfilam e falam a várias vozes. O resultado é um romance em diário de bordo, uma ficção de portulano, «suma accidental em que da conta de mvitas e mvito estranhas cousas que vio e ouvio nos reynos do Achém, Çamatra, Sunda, Jaua, Flores y Servião y Bellos, que vulgarmente se chamam Timor, homde nace o sandollo».


edição: Dom Quixote
título: Peregrinação de Enmanuel Jhesus
autor: Pedro Rosa Mendes
formato: 15,5x23,5cm
n.º pág.:346
isbn:9789722040679
pvp: 16.90€

terça-feira, maio 25

Não há saco


Para aqueles que estão fartos, como eu, de ser perseguidos por livros, filmes e séries com vampiros:

DEZ MÉTODOS TRADICIONAIS PARA ANIQUILAR UM VAMPIRO

1 - Cravar-lhe uma estaca no coração
2 - Decapitá-lo *
3 –Expô-lo à luz solar
4 –Queimá-lo
5 –Trespassá-lo com uma espada #
6 – Imergi-lo em água
7 – Expô-lo a água benta e alho
8 – Tocar-lhe com um crucifixo ‘’
9 – Encurralá-lo na sepultura
10–Extrair-lhe o coração

Notas:
*Evitar salpicar sangue.
#A espada deve ser abençoada.
‘’Só funciona com vampiros recentes.


Jaime Bulhosa

Catalunha em Pó


Amanhã 26 de Maio, quarta-feira pelas 18h30, mais um debate Catalunha em Pó:

Casa da Misericórdia, Joan Margarit, OVNI Editora, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas.
Com a presença de Rita Custódio (tradutora), Àlex Tarradellas (tradutor) e Álvaro Góis (editor)

O Jardim dos Finzi-Contini


Os Finzi-Contini são uma das mais tradicionais e refinadas famílias da intelligentsia judia de Ferrara, nos anos que antecedem a Segunda Guerra Mundial. Com o fascismo a apoderar-se rapidamente de Itália, os seus domínios em torno da mansão — amplos e murados —são o local de prazer e segurança dos últimos da linhagem. No jardim, as personagens surgem ligadas por um destino comum que as isola do resto do mundo. E o jardim não configura apenas o símbolo de refúgio; é também o derradeiro reduto da resistência contra a barbárie fascista. Mas um clima opressivo pressagia a catástrofe e, surda e implacavelmente, os acontecimentos vão precipitar-se. O Verão no jardim afastará temporariamente a treva. E nesse Verão, entre paixões cruzadas, vai nascer um amor não-correspondido. O Jardim dos Finzi-Contini, a obra-prima de Giorgio Bassani adaptada ao cinema por Vittorio de Sica, é um romance sobre o fim de uma ordem social, que evolui com a lenta cadência da memória.


edição: quetzal
título: O Jardim dos finzi-Contini
autor: Giorgio Bassani
tradução: Egito Gonçalves
formato: 15x23cm
n.º pág.: 315
isbn: 9789725648797
pvp:17.95€

segunda-feira, maio 24

Milagres

Alguém colocou neste post o comentário: «Conseguir "Nos Mares do Fim do Mundo", de Bernardo Santareno é que nem a Senhora da Nazaré me vai valer

:-(((

Maria Helena»

Como não temos outro meio de a contactar, era só para dizer que a Senhora da Nazaré fez o milagre e o livro encontra-se guardado em seu nome.

Perversão


Vasco, sete anos:
- Pai, uma professora lá da escola emprestou-me este livro. Ela é mesmo boa!
Reagindo de imediato, como é obrigação de um encarregado de educação, acabadinho de ver as fotos da professora de música de Mirandela, admoestei-o, meio gago.
- Ó Vasco, uma professora mesm… mesmo boa!?...
- Não pai! Não é boa de namorar, é boa de bondade.
- Ah!
--
Jaime Bulhosa

Dedicatórias em obras literárias


«Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.»
Machado de Assis (1839-1908), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

«Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo.»
Dedicatória de William S. Burroughs (1914-1997) no poema A Thanksgiving

«Para Vera e Alex e, é evidente, para o gato Benevides, que me deu tremendas lições de dignidade.»
Mário-Henrique Leiria, Novos Contos de Gin (1974)

«Além de não andar bom de saúde, estou sem cheta. E imperador por imperador, monarca por monarca, tenho em Nápoles ao grande conde de lemos que, embora eu não ostente graus nem diplomas universitários, me mantém, me ampara e me faz mais mercês do que as que posso apetecer.»
Miguel de Cervantes (1547-1616), segunda parte de Dom Quixote de La Mancha (1615)

sexta-feira, maio 21

Horas Extraordinárias

Este não é só mais um blogue, é um blogue que vou ter prazer em ler: Horas Extraordinárias

Jaime Bulhosa

Bocejo


Li um livro sobre livros, edição de livros e mercado do livro e todo um novo universo se abriu para mim: Finalmente entendo porque é que há pessoas que dizem que ler pode ser tão chato.

Livreiro anónimo mortalmente entediado

Feira do Livro de Lisboa: esticar, esticar

Nós entendemos que os protestos dos pequenos livreiros (feitos aqui, aqui e aqui) sobre a decisão da APEL de prolongar mais uma semana a data de fecho da Feira do Livro de Lisboa não tenham chegado às televisões, aos jornais e às revistas, e a ver vamos se chegam às revistas sobre livros. Porém, custa-nos muito mais entender que não tenham chegado aos blogues ditos da «especialidade». Bem vistas as coisas, o protesto até chegou aos ouvidos de quem se visava. Quanto aos blogues da especialidade, que até agora, incompreensivelmente, fizeram silêncio sobre o assunto, só eles saberão quais os seus critérios editoriais. Sobre este tema, gostaríamos de chamar a atenção para o oportuno artigo (de onde retiramos o título do post) da jornalista Sara Figueiredo Costa, no blogue Cadeirão Voltaire.

quinta-feira, maio 20

Máquina de irritar


Há muitos anos atrás, no passado, um pedaço de matéria inanimada ficou tão irritado com alguma coisa que rastejou dali para fora, movido pela indignação.

Num conto de Philip K. Dick (1928-1982), Left Shoe, My Foot («Sapato Esquerdo, Meu Pé»), esta observação inspira a personagem Doc Labyeinth a construir uma máquina de irritar tão poderosa que consegue dar vida a objectos inanimados; a história acaba com um sapato Oxford castanho de homem a desaparecer numa sebe com um sapato de salto alto animado. Seguem-se ruídos de esfreganço continuo.


Nota: Philip K. Dick, é também autor do livro Do Androids Dream of Electric sheep?, novela que viria a servir de argumento para o filme Blade Runner.

O Falecido Mattia Pascal


Cansado da sua monótona vida de arquivista, farto de um casamento que não funciona, importunado por uma sogra metediça, atormentado por credores, Mattia Pascal toma a decisão repentina de viajar até Monte Carlo. Com o pouco dinheiro que tem, joga no casino, ganha uma soma avultada e fica inebriado pela fortuna repentina. Na viagem de regresso a casa lê no jornal a estranha notícia da sua própria morte, por suicídio. Mattia Pascal morreu: finalmente livre e rico, poderá viver uma nova vida sob a capa do anonimato...


edição: Cavalo de Ferro
título: O Falecido Mattia Pascal
autor: Luigi Pirandello
tradução: José C. Serra
formato:12,8x18,5cm
n.º pág.: 291
isbn:9789896231163
pvp: 12.00€

quarta-feira, maio 19

Imbeciclopédia IV

(isto é um bigode!)


As coisas que lemos:

A Conspiração para matar o bigode de Hitler

Num estudo sobre os hábitos de saúde de Adolf Hitler, durante a 2. ª Grande Guerra Mundial, o Gabinete de Serviços Estratégicos, GSE – antecessor da CIA – concluiu que o Füher estava na fronteira entre o masculino e o feminino, de acordo com Stanley Lovell, director de pesquisa e desenvolvimento da OSS, durante a guerra. Um empurrão ao lado feminino poderia causar a queda do seu bigode e alterar a sua voz para soprano, transformando, assim, Hitler num motivo de chacota da nação e, consequentemente, derrubando-o do poder. Para isso acontecer, a OSS subornou o jardineiro particular de Hitler, dando-lhe instruções para que injectasse estrogéneo nos alimentos do Füher. Lovell especulava que, ou os provadores oficiais de Hitler notaram algo estranho nas cenouras, ou andavam todos a cantar com voz de soprano, mas o mais verosímil é o jardineiro ter deitado fora as hormonas e ficado com o suborno.

Os Filósofos e o Amor


Acesso à eternidade para Platão, o amor é uma ilusão mortal para Lucrécio. Desafio de toda uma existência para Kierkegaard, não passa, segundo Schopenhauer, de uma artimanha do instinto sexual. Quanto a Rousseau, inventor do romantismo, é difícil encontrar um sistema filosófico mais estreitamente ligado às nevroses do seu autor.
A par das concepções teóricas acerca do amor, do sexo, das relações entre os dois géneros da espécie humana, este livro desvenda também a vida amorosa dos filósofos: o donjuanismo desenfreado de Sartre, a lendária ausência de libido em Kant, os fracassos de Nietzsche entre as jovens raparigas, incluindo inúmeros episódios mais ou menos sérios, mais ou menos bizarros, em boa parte pouco conhecidos. Caberá ao leitor a tarefa de decidir se eles saberão consolar-lhe os males de amor.

Prefácio de Eduardo Lourenço

edição: tinta-da-china
título: Os filósofos e o Amor
autor: Aude Lancelin e Marie Lemonnier
tradução: Carlos Vaz Marques
formato: 14x21cm
n.º pág.: 269
isbn: 9789896710361
pvp: 17.90 €

terça-feira, maio 18

Top Livro das Livrarias Independentes entre 29 de Abril e 23 de Maio



1- Nada

2- Zero
3- Néribi
4- Népias
5- Nicles
6- Nicles batatóides
7- Patavina
8- Pevas
9-
Café curto
10-Abatanado

Está-se sempre a aprender

(Giudita Pasta 1797-1865)


Ouvido durante uma visita à Feira do Livro:

- Por favor, sabe dizer qual é o autor do Código Civil?
- Não faço ideia! O melhor é perguntar nos pavilhões de livros de direito.
- Não pode ser… Você tem obrigação de saber! Ele é tão conhecido.
Quem estava a atender, um pouco irritado, responde com voz nitidamente de tenor e mão na anca:
- Olhe! Por acaso você sabe quem foi a primeira cantora da Ópera Norma, de Bellini?
- Não! É assim tão conhecida? Tanto como o autor do Código Civil?
- Pois fique sabendo que se chamava Giudita Pasta…
Entretanto alguém, entre os visitantes da feira, diz:
- Principalmente porque o Código Civil não tem um autor.

Amiguismo


É por causa de livros como estes que eu ainda sou livreiro. Podem acusar-me à vontade de amiguismo; sim é verdade, dou destaque na loja, na montra, no blogue e continuarei a dar a todos os livros desta colecção. Confesso, privilegio os meus amigos e companheiros: Fiódor Dostoiévski, Denis Diderot, Jack London, Vladímir Korolenko, Máximo Gorki.

Jaime Bulhosa


...Enquanto ela aqui estiver, ainda está tudo bem: aproximo-me e vejo-a a cada minuto; mas amanhã levam-na - e como vou eu ficar sozinho? Agora está na ala, em cima da mesa, juntaram duas mesas de jogo, e a urna virá amanhã, branca, revestida de seda branca, mas não é disso que se trata... Não paro de andar para cá e para lá e quero compreender tudo isto. Há já seis horas que procuro compreender e ainda não consegui ordenar as ideias. É que não paro de andar, andar, andar de cá para lá... Eis como as coisas se passaram. Vou simplesmente contar por ordem. (Ordem!)

-
edição: Arbor Litterae
título: A Submissa
autor: Fiódor Dostoiévski
formato: 13x20cm
n.º pág.: 108
pvp: 10.00€



Logo que se acaba um conto, ele pertence a quem o escuta; e por pouco que o conto dure, é raro que o contador não seja algumas vezes interrompido pelo seu ouvinte. Eis porque introduzi na narrativa que se vai ler, e que não é um conto, ou que é, em caso de dúvida, um mau conto, uma personagem que desempenha, por assim dizer, o papel do leitor; e eu começo.

-
edição: Arbor Litterae
título: Isto Não é um Conto
autor: Denis Diderot
formato: 13x20cm
n.º pág.: 88
pvp: 10.00€
(brevemente à venda nas livrarias)

segunda-feira, maio 17

Protesto livreiro


Se imaginarmos dois observadores, colocados em perspectivas diferentes perante um objecto com diversos contornos, e pedirmos a cada um deles que lhe tire uma fotografia, sabemos que, no final, teremos estampadas imagens necessariamente distintas. Depois, se pedirmos aos mesmos observadores que nos façam uma descrição do objecto que fotografaram, teremos obrigatoriamente duas visões discrepantes sobre o mesmo objecto e ambos estarão a dizer a verdade sobre o que vêem. Não consigo arranjar melhor exemplo para explicar o diferendo que divide, há anos, editores e livreiros (agora, cada vez mais, os pequenos e independentes livreiros) sobre os moldes em que devem ser realizadas as Feiras do Livro de Lisboa e Porto. Claro, temos, como em quase tudo, uma excepção à regra: se o objecto fotografado fosse uma esfera, mesmo com fotografias de perspectivas diferentes, seria sempre visto da mesma forma.
Era mais ou menos isto que eu esperava que a nova direcção da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) fizesse em relação às Feiras do Livro - isto é, que fosse limando as arestas do objecto, para que ele se parecesse cada vez mais com uma esfera que agradasse à grande maioria dos diversos agentes do mercado do livro.
Enganei-me, pelo menos até agora, sobre a nova direcção da APEL. Não alteraram em nada o que as anteriores direcções da associação já tinham feito. Como as perspectivas sobre as Feiras do Livro, entre editores e livreiros, continuam a ser divergentes, tal como um casal que não se entende acerca da forma como se deve relacionar e gerir os assuntos que lhe são comuns, acontece o que sempre acontece nestes casos (enquanto não culmina em divórcio): o mais forte dá uma paulada na cabeça do mais fraco, para que ele se cale, tendo o cuidado de não o matar, querendo apenas deixá-lo meio azamboado, até porque sabe que, de vez em quando, ele lhe é útil.
Os efeitos das Feiras do Livro de Lisboa e Porto sobre as já debilitadas tesourarias dos pequenos livreiros, começam a fazer-se sentir muito antes do seu começo e prolongam-se muito para além do seu fim. A influência na captação de público não se limita a retirar clientes às livrarias de Lisboa e Porto, chegando a outras cidades, como por exemplo Caldas da Rainha, Setúbal, Torres Vedras, Braga e muitas outras. É por isso que levanto um protesto em relação ao adiamento da data de término da Feira do Livro de Lisboa, unilateralmente decidido pela direcção da APEL.
Não vou aqui enumerar os argumentos sobre a necessidade da manutenção da existência de livreiros alternativos, até porque seria repetitivo e fastidioso para quem me lê e não pertence ao meio. Mas devo recordar que livrarias como a Trama, a Ler Devagar e a Pó dos Livros, só para dar três exemplos, fazem mais, proporcionalmente, pela divulgação da leitura, do livro e da cultura do que fazem outras grandes cadeias de livrarias pertencentes a grupos editoriais.
Se só quisermos ter no mercado editorial e livreiro catálogos de livros que apenas a preguiça mental se sente lisonjeada em ler, então é este o caminho a seguir. Mas, por outro lado, se queremos que se mantenham livrarias de qualidade que dêem resposta aos interesses e necessidades de todos, inclusivamente das minorias, então teremos de ter mais cuidado nas decisões que tomamos, apressadamente, visando unicamente o lucro imediato. Foi este o caso da decisão da direcção da APEL sobre o prolongamento, por mais uma semana, da Feira do Livro de Lisboa, com pretensos pretextos de que o mau tempo, a visita do Papa, os festejos do Benfica e o diabo a sete teriam prejudicado em muito as suas vendas.
O que diremos nós, pobres livreiros!?...

Jaime Bulhosa

sexta-feira, maio 14

Paradoxo

Será que alguém é capaz de me explicar este paradoxo: Porque é que a Livraria Pó dos Livros e outras, para poderem participar nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto, têm que se inscrever, pagar para uma associação (APEL) que não defende os seus direitos?

Jaime Bulhosa

Lástima

É uma lástima um livreiro passar o tempo a dizer: «que lástima!», mas é tudo o que me ocorre dizer sobre esta notícia.

Livreiro anónimo

Epitáfio

Última mensagem de um poeta maldito para os seus leitores:

Espero que tenham gostado dos poemas que escrevi. Se tiverem alguma reclamação, comentário ou sugestão, este é o meu actual e-mail: inferno.setimocirculodante@.com

anónimo


2012


Coloca o livro no balcão, entre as mãos, com todo o cuidado, como se aquele objecto fosse mais do que apenas um livro. Soergue a cabeça, olha para o livreiro e diz, mais em jeito de comentário do que de pergunta:

- Vendem-se mais… agora que está aí o Santo Padre?

- Refere-se à Bíblia? Para lhe ser sincero, já se vendeu mais.

- É o sinal dos tempos. As pessoas deixaram de temer pelas suas almas, julgam que tudo lhes é permitido fazer, agindo sem moral nem ética, e, no fim, o perdão ser-lhes-á concedido de qualquer das formas, bastando para isso que se finjam arrependidas. Deus não é assim tão ingénuo. Agora não se reza e já ninguém se confessa, o unanimismo prevalece e toda a gente acredita nas baboseiras que a comunicação social diz sobre Teoria da Evolução. Agora, o Sagrado é a Televisão, é nela que acreditamos. Declararam a morte de Deus e agora tudo é permitido*. Os jornalistas reescrevem o passado, seleccionam, desvirtuam o presente e tudo é relativizado. O final dos tempos está próximo, o Dia do Julgamento Final está para chegar e aí... quero ver! A Justiça Divina far-se-á inexoravelmente. Essa é a mensagem que o Santo Padre nos traz.

O livreiro faz cara de quem leva sério as palavras ditas, com tanta solenidade, e finge um arrepio.

- O Dia do Julgamento Final está a chegar, tem a certeza? Já tinha ouvido dizer que o mundo ia acabar em 2012. É verdade que até se fizeram filmes sobre isso e que foi profetizado por Nostradamus, porém, tinha esperança de que não passasse de ficção de Hollywood.

- Não sou eu que digo, nem esse Nostradamus de que fala. Está confirmado pelas Escrituras.

- Quer dizer então que temos uma confirmação oficial?

Atrapalhado, o cliente pergunta:

- Uma confirmação oficial?

- Quero dizer… já foi confirmado pela comunicação social?

Mais do que nunca, o cliente fica baralhado.

- Como pela comunicação social?

- Se houve uma conferência de imprensa dada pelo próprio?

- Ó homem, de que é que está a falar, do Papa?!...

- Não! Dele, em pessoa, a falar na televisão.

Exasperado, o cliente quase se zanga:

- Por Deus! Não!

- Não apareceu na televisão? Hmm… então não existe!

- Você é um malandro…

* Talvez uma referência à frase de Nietzsche, «Deus está morto», em Assim Falava Zaratustra ou à frase «Se Deus está morto, então tudo é permitido», da personagem do romance de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov

Nota: Esta história aconteceu com um cliente habitual, muito simpático, que gosta de se afirmar católico e de brincar connosco, brindando-nos constantemente com pequenos sermões.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, maio 13

Contadores de histórias

Logo à tarde, a partir das 19h00, o espaço Atmosferas da ETIC (Rua da Boavista, 67, Lisboa) acolhe uma conferência sobre story-telling, organizada pelo Clube de Criativos de Portugal.

Oito propostas simples para um PEC livreiro


1.ª Acabar com o analfabetismo

2.ª Acabar com a crise

3.ª Acabar com a chuva

4.ª Acabar com a balda dos descontos e prolongamentos previstos na Feira do Livro

5.ª Acabar com tolerância de ponte para visitas de Chefe de Estado

6.ª Acabar com os cortes de estrada

7.ª Acabar com o fecho de linhas do Metro.

8. ª Acabar de joelhos em Fátima, a pedir ao Papa uma cunha para um milagre


Jaime Bulhosa

A Viúva Grávida


Estamos no Verão 1970 - um Verão longo e quente. Num castelo em Itália, meia dúzia de jovens flutuam sobre um mar de mudança, levados na corrente da revolução sexual. As raparigas comportam-se como rapazes e os rapazes continuam a portar-se como rapazes. E Keith Nearing - um estudante de literatura com vinte anos, às voltas com o romance inglês - luta para que o feminismo e o novo poder das mulheres reverta a seu favor.
A revolução sexual pode ter sido uma revolução de veludo, mas não aconteceu sem derramamento de sangue...
A Viúva Grávida é uma comédia de costumes, um pesadelo. Um livro brilhante, assombroso e gloriosamente arriscado. É Martin Amis no auge da sua audácia.


edição: Quetzal
título: A Viúva Grávida
autor: Martin Amis
tradução: Jorge Pereirinha Pires
formato: 15x23cm
n.º pág.: 533
isbn: 9789725648629
pvp: 22.95€

quarta-feira, maio 12

Imbeciclopédia III


As coisas que lemos:

O gerente de uma sala de cinema em Banguecoque, na Tailândia, decidiu que o tempo de duração do conhecido musical Música no Coração, em exibição, era demasiado longo. Sem hesitações, decidiu cortar todas as canções.

Juliet, nua


Annie e Duncan encaixam naturalmente um no outro como peças de um "puzzle", embora a obsessão apaixonada de Duncan por Tucker Crowe, o torturado e genial compositor de letras musicais que se retirou do mundo como um eremita, nunca deixou muito tempo para qualquer coisa mais significativa - casamento, filhos, conversas acerca de qualquer coisa que não seja à volta de Tucker Crowe e do seu desaparecimento, depois de um misterioso incidente na casa de banho de um bar há trinta anos. Na realidade, Annie começa a pensar se terá gasto quinze anos da sua vida numa má relação, presa a um emprego estúpido, numa cidade enfadonha na desolada costa leste de Inglaterra. Quando a editora de Tucker publica inesperadamente uma nova versão do seu álbum mais famoso, primeiro lançamento de Tucker desde há décadas, e Annie simplesmente não consegue ver a vantagem dessa nova edição, ou pelo menos o que é que ela tem de melhor do que a versão original, Duncan encontra consolo na cama com outra pessoa - e Annie vê-se finalmente livre para correr com ele. Mas para Duncan, o pior ainda está para vir. Annie não é a única a ter aquela opinião. Depois de ter escrito uma crítica num site de fãs, ela recebe uma resposta de uma fonte completamente improvável, o próprio Tucker. A correspondência que se segue é duplamente satisfatória. Não só Tucker é, como ela um perito em anos de vida perdida, como começa a perceber o que é que está por detrás do seu longo silêncio. E certamente não é um incidente na casa de banho de um bar... Um excelente romance acerca da natureza da criatividade, da obsessão e da forma como duas pessoas solitárias se podem gradualmente encontrar uma à outra.


edição: Teorema
título: Juliet, nua
autor: Nick Hornby
tradução: Luís Ruivo domingos
formato: 15,5x23,5cm
n.º pág.: 343
isbn: 9789726958994
pvp: 17.90€

terça-feira, maio 11

O Museu da Inocência


O Museu da Inocência é uma história de amor, passada em Istambul, entre a Primavera de 1975 e os últimos anos do século XX, e conta a história da paixão obsessiva do herdeiro de uma família rica, Kemal, por uma prima afastada, Füsun, de um meio social menos favorecido. Mas Kemal está noivo da filha de uma das famílias da elite istambulense. Entretanto, Kemal começa a coleccionar objectos pessoais e outros que lhe fazem lembrar a sua amada. Esses objectos são simultaneamente um fetiche e uma crónica da sua felicidade e das mágoas, um mapa de sinais de todos os sítios onde estiveram juntos. Com o tempo, a compulsão do coleccionador acabará por dar origem a verdadeiro museu, que também permite explorar uma Istambul meio ocidental e meio tradicional, a sua emergente modernidade e a sua vastíssima história e cultura.


título: O Museu da Inocência
autor: Orhan Pamuk
tradução: Miguel Romeira
formato:14.5x23cm
n.º pág.: 646
isbn: 978972234355
pvp: 23.50€

sem título


O Diabo não conseguiu fazer perder a paciência de Deus.

Conclusão imediata: O Diabo não é mulher.

Anónimo

segunda-feira, maio 10

Alice

A revista Alice extinta em papel renasce agora em formato digital. A Pó dos livros também caiu na toca do coelho.

Imbeciclopédia II

As coisas que lemos:

Duas palavrinhas, por fim, sobre uma quinta prova a favor da existência de Deus, […] de uma forma simples: se o homem concebe Deus, o ser perfeito, ele tem de existir, porque se não existisse, tinha uma imperfeição: não existia.

Cidália Laranjo e Francisco de Almeida Garrett, em Pais e Mães, Fronteira dos Caos

Historieta sem nenhum interesse, só para falar de uns livrinhos irresistíveis que acabamos de receber de Espanha


Eu (sentando-me no banco de trás do taxi): Bom dia.
O taxista: Bom dia.
Eu: É para a Marquês de Tomar, se faz favor.
O taxista (arrancando): Parecia que ia chover, mas afinal está a limpar.
Eu: Não sei, ainda há umas nuvens negras.
O taxista: Domingo. Domingo é que dizem que vai chover.
Eu (a fechar a janela): Mas voltou o frio.
O taxista: Temos aí é a nuvem de fumo do vulcão.
Eu: Ah, sim?
O taxista: É, dizem que ao meio dia passa em Lisboa.
Eu: Ah, não sabia.
O Taxista: Mas passa muito alto, acima das outras nuvens, nem se deve dar por ela.
Eu: Ah, pois...
O taxista: Isto em tempos de crise parece que tudo acontece.
Eu: É verdade, é verdade...

De que se valerão os tontos para conversar naqueles países onde nunca chove e a temperatura é constante?
(Pitigrilli)
in Mil y Un Pensamientos- Mil Frases Escogidas de Cien Hombres Famosos, Editorial Maxtor, 2006 (edição facsimilada da edição de 1952, Ediciones Rvmbos)
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Isabel Nogueira

sexta-feira, maio 7

Filho Adolescente

- Pai, tens cá em casa, ou na livraria, algum livro sobre a morte?

- Sim, temos cá em casa uma História da Morte muito interessante…

Conhecendo-me bem, o meu filho interrompe-me.

- Não pai! Desses também temos na biblioteca lá da escola. Esses livros são sobre a história dos vivos perante a morte dos outros, ao longo dos tempos, e não sobre a morte em si.

- Ah! Referes-te àqueles livros com relatos de pessoas que passaram pela experiência da morte clínica?

- Também não pai. Isso é treta! Não passam das memórias dos milionésimos de segundo vividos imediatamente antes do cérebro apagar, ou dos segundos vividos depois do cérebro reacender. Estás a perceber pai? Eu quero ler alguma coisa sobre a morte absoluta, definitiva.

Depois da humilhação, levanto-me e dirijo-me à estante. Retiro um livro cujo título poderia ser Compêndio dos Conhecimentos Científicos e Teológicos Sobre a Morte, composto por apenas duas folhas e peço para que o meu filho me leia alto:

PRÓLOGO

Num enterro numa aldeia normanda. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo fúnebre. «Ainda era novo, tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»

EPÍLOGO

Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.

E. M. Cioran


Jaime Bulhosa

Imbeciclopédia I

As coisas que lemos.

«Quando os habitantes de Pyongyang na Coreia do Norte, apresentaram queixa de que as linhas de telefone de emergência da polícia estavam quase sempre ocupadas, as chefias da polícia metropolitana decidiram criar duas linhas de fax de emergência.»

quinta-feira, maio 6

On the Meaning of Reading


Todas as minhas melhores leituras aconteceram na casa de banho. Há excertos de «Ulisses» que apenas na casa de banho se podem ler se quisermos saborear completamente o seu conteúdo.

Henry Miller.


Não tenho dúvidas de que esta citação é verdadeira, ainda para mais sabendo de quem vem. Também eu admito ter tido momentos de leitura na casa de banho. Mas não a ler os clássicos gregos. Quando muito, contemplei as legendas de um busto feminino da estatuária da antiguidade clássica, estampado nalgum livro escolar. Todos os pretextos são bons para um rapaz adolescente se enfiar na casa de banho a ler. Seja como for, os lugares onde lemos parecem ter, para os estudiosos destas coisas, grande importância. O local pode influenciar de maneira significativa o prazer da leitura. Por exemplo, Marguerite Duras detestava ler na praia. Dizia ela: «Não se pode ler a duas luzes simultaneamente, a luz do dia e a luz do livro.» Omar Khayyam, apreciador dos prazeres da vida, recomendava a leitura de poesia ao ar livre, à sombra da ramagem de uma árvore, enquanto Shelley escreveu: «Tenho o hábito de tirar a roupa, sentar-me num penedo e ler Heródoto até parar de transpirar.» Eu, de gostos bastante mais prosaicos, onde de facto tiro maior prazer é na cama, a ler um qualquer clássico do século XVIII. Também o faço noutros sítios e com outros livros, mas prefiro fazê-lo na cama. Ler na cama é especial, tem-se maior privacidade, porque se é invisível aos olhos indiscretos, e, por se estar entre os lençóis, tem-se o sabor do picante das coisas proibidas e pecaminosas. A vida e a literatura estão cheias de relatos de escritores e leitores sobre as suas preferências quanto aos lugares e formas predilectas de leitura. No entanto, foi de um episódio da minha vida pessoal e não na literatura que retirei o melhor exemplo acerca da importância que pode ter o espaço circundante, o local onde se lê, o que se escolhe para ler, e o momento exacto para o fazer. Há uns meses, numa viagem que fiz em grupo ao Médio Oriente, partindo da grande metrópole africana que é a cidade do Cairo, no Egipto, passando pelo deserto da Península do Sinai, pernoitando em Taba, junto ao Mar Vermelho, depois de atravessarmos pelas estradas o Deserto da Judeia, chegámos ao Mar Morto, em território israelita. Desejosos de esticarmos as pernas, apreciarmos a paisagem, vestirmos o fato de banho, entrarmos na água para tirar a fotografia da praxe, flutuando com um livro na mão, como só se pode fazer nas águas saturadas do Mar Morto, reparo que um dos companheiros de viagem se afasta do resto do grupo. Completamente alheado da paisagem, vestido de calças e blazer, pega num banco, tira um livro de um dos bolsos e começa, sem perder tempo, a ler. Surpreendido com aquela reacção e, perante tal gesto, não pude deixar de pensar, imediatamente, que estava perante um verdadeiro intelectual. Aquele homem só pode ter, de certeza absoluta, uma exigência, uma sensibilidade muito pouco comum quanto aos locais que escolhe para ler. O que estaria ele a ler, naquele local carregado de história e religião, não muito longe de onde dizem que Moisés recebeu as Tábuas dos Dez Mandamentos? Pensei que fosse o que fosse que estivesse a ler teria de ter alguma ligação com lugar, talvez um texto bíblico, ou os Manuscritos do Mar Morto? Não resistindo à curiosidade, dirigi-me a ele:
-Posso perguntar-lhe o que lê?
Meio atrapalhado, o meu companheiro de viagem olhou para o livro como se não soubesse o título que estava a ler e respondeu:
- On the Meaning of Life.
- Eu sabia que o título teria a ver com o local!
- Como descobriu?
Pergunta o meu companheiro de viagem, perplexo.
- Não podia ser outra coisa.
- Mas como pôde, apenas pelo título do livro, que eu escolhi aleatoriamente, descobrir que o utilizo como disfarce para ver discretamente as miúdas em biquini?
-
Jaime Bulhosa

Parecem mesmo livros

Parecem mesmo livros e na realidade até são, os Cadernos tinta-da-china, pautados ou lisos, não servem para ler, mas para escrever.
Venda exclusiva na livraria Pó dos livros e, apenas durante o período da Feira do Livro, nos pavilhões tinta-da-china, com desconto.


pvp: 5.95€

quarta-feira, maio 5

Privilegiado


Estava almoçar no restaurante onde vou muitas vezes e, como de costume, quando estou sozinho levo um livro para ler.

- Ah! Como eu gostaria de ler assim, livros inteiros…
Diz-me o empregado de mesa.
- Então porque não o faz, não tem desculpa, aqui mesmo ao lado tem a minha livraria?
Perguntei eu, com um ar meio presunçoso.
- Para si é fácil falar, já tentei ler um livro e não percebi nada, para além disso são caros.
Senti a sinceridade da resposta como um murro no estômago.
- É verdade o que diz. Sabe, em questão de leituras, sou como os ricos, perco a noção do valor das coisas.


Jaime Bulhosa

Submundo


Submundo é a crónica de vidas ordinárias inseridas no último meio século da história americana. No imenso palco do romance, elas cruzam-se com figuras que marcaram a época - J. Edgar Hoover, Frank Sinatra, entre outras. DeLillo faz surgir uma obra de arte deslumbrante do outro lado, obscuro e escondido, da humanidade contemporânea.

«Submundo é um livro magnífico de um mestre americano.»
Salman Rushdie

«Este livro é uma ária e um uivo de lobo do nosso meio século. Contém multidões
Michael Ondaatje

«Um forte candidato a livro do ano.»
José Mário Silva

edição: Sextante - título: Submundo - autor: Don Delillo - tradução: Paulo Faria - n.º pág.: 840 - formato: 16x23.5cm - isbn: 9789896760144 - pvp:23.90€

Hoje às 18h30

(clique sobre a imagem para ampliar)





terça-feira, maio 4

Verdade ou consequência


O facto de se trabalhar com livros pode transmitir, erradamente, a ideia de que um livreiro deve ter resposta para tudo e o pior é o próprio acreditar que isso é verdade.

- Por favor, posso fazer-lhe uma pergunta? Como trabalha com livros deve ler muito, não é?
- Uhmm! Sim… mais ou menos.
- A imortalidade de Deus é uma consequência inevitável da sua própria condição de Deus, ou uma opção?
- Deve ser consequência!?... Se não há muito que ele teria morrido de tédio, não acha?

Zona


Num comboio nocturno para Roma, um antigo espião e antigo militar faz desfilar as suas memórias da zona onde exerceu as suas actividades - o contorno do Mediterrâneo: guerras balcânicas, violências na Argélia, guerras do Próximo Oriente...
Zona compõe um palimpsesto ferroviário em vinte e quatro «cantos» conduzidos de um fôlego, e magistralmente orquestrados, como uma Ilíada do nosso tempo…


edição: Dom Quixote
título: Zona
autor: Mathias Énard
tradução Pedro Tamen
formato: 16x24.5cm
isbn: 9789722040358
pvp: 20.00€