quarta-feira, março 30

O Segredo dos Negócios


Ontem, à noite, dizia-me assim um amigo: Estou farto desta cidade chata, vulgar, em que não há nenhuma possibilidade de aventuras dignas de tal nome: em que a gente sabe, de antemão, que jamais encontrará o maravilhoso.

- E como estás tu certo disso? – perguntei-lhe.

- Ora, vamos lá, homem!...

- Com frequência as maravilhas se encontram ao alcance das nossas mãos, os milagres se produzem em frente da nossa janela… O que acontece é que é necessário ter a aptidão, a predisposição para essas coisas.

Mas ele não me quis crer e deixou-me para ir a uma agência de navegação, a fim de ver a que horas saía o primeiro barco para «o coração de África ignota», segundo o seu próprio dizer.

Eu continuei a caminhar pela mesma vereda… E escrevo esta verídica historia no sentido de que, se lida pelo meu tal amigo, ele regresse logo que chegue ao primeiro porto.

Continuei a caminhar pela mesma vereda e, pouco depois, uma mão cordial e um tanto pesada bateu-me no ombro. Voltei-me e achei-me defronte da cara rosada e sorridente de um senhor, que me disse:

- Mas, és tu?

Como efectivamente era eu e não tinha motivos sérios para o negar, como sucede, por exemplo, às pessoas que por culpa das más companhias têm mandato de captura, respondi-lhe:

- Nem, mais, nem menos.

Um pouco mais, homem, um pouco mais, pois na última vez que te vi pesavas metade do que pesas agora.

Após um bocado de conversa chegámos à conclusão de que éramos dois companheiros de colégio que se não viam desde os dias longínquos do quadro preto e dos gatafunhos; e de que logo que se sobrasse um bocadinho de tempo daria uma saltada ao seu escritório.

Fui ontem vê-lo.

Os seus escritórios estão instalados numa boa casa, em cuja porta se lê: «Pérez & Cia.,Lda.»

Para chegar junto de Pérez, que é amigo do que estou a falar, tive de percorrer várias salas e salões, muito bem mobilados todos e onde um batalhão de raparigas de diferentes tipos de beleza percutia desesperadamente as suas máquinas de escrever. Passei também diante de uma reixa dourada, por detrás da qual uns cavalheiros gordos se moviam, com gestos pousados, e contavam altas rimas de notas.

Enormes, negros solenes, muitos cofres de ferro lhes serviam de pano de fundo.

O Pérez recebeu-me muito bem, apresentou-me a um senhor que segundo me disse, era seu sócio (o senhor Cia., suponho), ofereceu-me café e, depois de várias ordens dadas por um telefone assente sobre a sua secretária, foi mostrar-me as restantes dependências da casa.

Eram tudo escritórios, arquivos, secções de máquinas de calcular, quadros de aparelhagem eléctrica privativos e o diabo a quatro.

De regresso ao seu gabinete, disse-me ele:

- Como vês, isto marcha.

- Assim parece. E em que é que te ocupas?

- Dirijo o pessoal.

E o pessoal, que faz ele?

- Faz muitas coisas: maneja os livros, escreve à máquina, tira cópias de correspondência registada nos livros rubricados, atende os agentes, organiza o arquivo…

- Bem, mas… de que tratam os teus negócios?

- De papel.

Tens então uma fábrica? Se assim é serei teu cliente, pois preciso de escrever umas cartas e não o faço desde há sete anos por carência de um bom papel.

- Não, não tenho fábrica de papel.

- Ah, já compreendo!

- Que é que tu compreendes?

- Que tens uma empresa editorial, um jornal.

- Tão-pouco.

Ele parecia gozar com a minha perplexidade.

- Papel de embrulho, com etiqueta?

- Não.

- Papel…

- Tão-pouco… vou explicar-te: nós não nos ocupamos de nada material; criamos papelada, expediente, grandes calhamaços, que vão sempre crescendo, correspondência, telegramas simples e cifrados, lançamentos e contra-ordens. Numa palavra: todos os trabalhos inerentes a uma grande empresa e nada mais. Compreendes agora?

- Nem patavina. Todos esses trabalhos se fazem para vender mercadorias, para chegar a transacções… enfim, para alguma coisa.

- Pois aqui não. Aqui exercemos a burocracia pura, o expediente pelo expediente, sem raiz em nenhuma realidade material.

- E isso dá?

- Não tenhas dúvidas. Queres tu ver o último balanço? É colossal!

Não, não; o que quero é saber de onde saem os lucros.

- Isso não sei eu próprio, nem ninguém nesta casa. Posso, porém demonstrar-te com cifras que quando um expediente é chegado à sua conclusão, quando tem todas as suas assinaturas e selos, seu número de ordem, suas idas e vindas – entra uma quantia na caixa, e disso vivemos setecentas pessoas, umas melhor que outras, como é lógico.

- Mas quem traz esse dinheiro e por que é que o traz?

- Ninguém, emana dos próprios expedientes, cai de entre a suas folhas, como o fruto cai das folhas da árvore quando chegada a estação propícia,

- Mas isso é absurdo!

- É todavia, verdade.

Quedei-me largo tempo, pensativo, a morder o charuto com que o Pérez acabava de obsequiar-me, e por fim perguntei:

- Vocês roubam alguém?

- Nem um centavo. Juro-te.

- Pois não percebo.

É muito simples: trata-se do segredo das grandes organizações, que consiste em criar papéis. Eles se encarregam, depois, de trazer o dinheiro.

Pequena Abelha


Não queremos contar-lhe o que acontece neste livro. Esta é uma história mesmo especial e não queremos desvendá-la. Ainda assim, vai precisar de saber um pouco mais sobre ela para querer lê-la, por isso, vamos dizer apenas o seguinte: esta é a história de duas mulheres. Os seus destinos vão cruzar-se um dia e uma delas terá de fazer uma escolha terrível, o tipo de escolha que ninguém deseja enfrentar. Uma escolha que envolve vida ou morte. Dois anos depois, elas encontram-se de novo. É então que a história começa verdadeiramente… Depois de ler este livro, vai querer falar dele a todos os seus amigos. Quando o fizer, por favor, também não lhes diga o que acontece. Permita-lhes saborear a sua magia.


edição: Asa
título: Pequena Abelha
autor: Chris Cleave
tradução: José Vieira de Lima
formato: 15,5x23,5cm
n.º pág.: 266
isnb: 9789892313177
pvp: 17.00€

segunda-feira, março 28

"Uma reflexão editorial"

Gostámos desta reflexão editorial, assinada por Manuel S. Fonseca, no blogue é tudo gente morta.

Uma carta muito anotada, ou um imbróglio esclarecido


A má memória não é senão preguiça mental. Fazendo um pequeno esforço, todas as coisas podem ser recordadas, como se aprende do teor da presente carta.



Senhor José Ramírez.


Querido amigo: Lamento incomodar-te, mas estou a fazer o inventário da minha casa, para me mudar, e notei que me falta um livro que te emprestei. Não me recordo ao certo se era «Gustavo, o estroinas», de Vítor Hugo, ou «A Noiva do Herege», de Plutarco, mas, em suma, era um livro de tese. Agradecer-te-ei muito que mo remetas.


Desejando que te encontres bem de saúde, na companhia dos teu, abraça-te este teu amigo,


Afonso Leguizamo


T./c.: Avenida de Maio, 725 – 6.º andar



P.S. – Estimado José: Rogo que desculpes a minha má memória, mas no momento de fechar esta recordo-me de que o que te emprestei não foi um livro mas sim um globo terrestre, para que mostrasses à tua esposa que a Turquia asiática não ficava na Austrália, como ela dizia, baseando-se em que era professora diplomada. Espero que mo envies em carta registada o mais cedo possível.


Teu,


Ildefonso Leguia


T./c.: Avenida do Trabalho, 527 – 9.º andar


Nota importante: que cabeça a minha, senhor D. Josias Martinez! Dê por não escrito tudo que vai atrás e desculpe-me o tratamento por tu, visto mal ter a honra de conhecê-lo. O caso é que aquilo que tive o prazer de lhe emprestar foi um sobretudo de dupla face, na noite em que V. Senhoria veio a minha casa propor-me um desafio no campo de honra, como representante do doutor Sócrates Ângulo, porque, devido a uma distracção, arrastei a esposa dele uns vinte metros, agarrando-a pelo colar, na crença de que o fazia ao meu cão Tom.


Queira perdoar, cavalheiro, e mande-me o sobretudo porque faz falta agora que estão a apertar os calores.


S.S.S.


Afonso Leguizamón


S./c.: Avenida Marginal, 6 – 725.º andar


P.S. – Graças a Deus, tenho muito boa memória, pois de contrário não entenderias a minha carta. A verdade é que, quanto ao isqueiro, podes ficar com ele, pois a minha mulher ofereceu-me outro melhor e não como esse é, que não acende nunca. O que farás o grande favor de devolver-me é o pau de bandeira que te emprestei por ocasião da vinda cá do Príncipe de Gales ou do Getúlio Roosevelt, não estou agora bem recordado. Estas falhas de memória são devidas ao facto de andar muito preocupado com pensamentos relativos ao enlace que vou contrair com a que há-de ser a minha eterna companheira.


Não vivo na Avenida Roque Sánez Peña, como te dizia na minha anterior, mas na Avenida Quintana. O número sim que é o mesmo: 275, morada 6.


Teu amigo de sempre,


Afonso Leguizamón


Nota indispensável: Distinto senhor D. Jesualdo Ramos: Rogo-lhe que rasgue esta carta sem a ler, pois deslizaram-me nela algumas «gaffes» sem importância mas que poderiam criar desagradáveis mal-entendidos entre nós. As coisas passaram-se assim: Veio aqui o senhor pedir-me que lhe emprestasse trezentos «pesos», por motivo do falecimento de sua esposa, e vi-me na necessidade de recusar-lho pela simples razão de o senhor ser tão solteiro como eu. Por isso, se de facto o senhor pensou em restituir-mos no prazo estipulado, apresso-me a dizer-lhe que o não faça, porque estamos quites.


Saúda-o atentamente,


L. Alfonso


S./c.: Avenida das Constituintes, 572


P.S. – No momento de deitar esta carta na caixa reparo em que omiti um facto de certa importância, meu querido Pepe: os trezentos «pesos» eram só trinta, e emprestaste-mos tu quando a minha senhora teve um terçol. Se tos não restitui mais cedo foi porque me não recordei antes. Tão-pouco tos mando agora por razões que exigiam contos largos. Todavia, isto não empanará a nossa boa amizade e podes retê-los em teu poder até que isso te convenha.


Teu,


A. Leguina


T./c.: Avenida Alvear, 6 – aposento 275


P.S. – Caro Pedro: O que são as coisas da vida! Eu a reclamar-te o guarda-chuva, por culpa da minha má memória, e tu a dizeres: De que guarda-chuva se trata? Claro está que não se trata de guarda-chuva nenhum. Para mais, estava já muito velho e deixava passar água. Rogo-te que me desculpes e me devolvas a seringa de injecções que levaste na noite em que a senhora sua sogra teve aquele faniquito. Noutras circunstâncias não ta pediria, mas tenho uma éguazinha que, tenciono fazer correr em La Plata.


Teu amigo,


Aldonzo Leguineche


T./c.: Avenida, 9.º andar


P.S. – Agora reparo em que há aqui o que os ingleses chamam um «quiproquó». Bastarão duas palavras, senhor Jonas Ramalho, para pôr as coisas a claro. Não foi o senhor, precisamente, mas sim a um tal sr. Nepomuceno Barrenechea, a quem facilitei essa quantia na roleta de Mar del Plata, e tão-pouco foi a 16 de Fevereiro de 1932 mas sim em 15 de Janeiro de outro ano, creio que de 1937, data que tenho bem presente, por ser o dia em que completei quarenta anos de idade.


Como se trata de uma importância tão insignificante, creio que não verá inconveniente em restituir-ma, pois trata-se de uma recordação de família que muito estimo.


Saúda-o cordialmente o


Nepomuceno Barrenechea


S./c.: 725, 6.ª moradia andar 7.º


Nota: - Acabo de ler detidamente esta carta, estimado José, e verifico claramente, pelo que se esclarece no segundo e no quinto post-scriptum, que não é a ti que eu devo remetê-la pela simples razão de que o que me receitou a teriaga, vem a ser cunhado de um sr. Ramalho, também José por tal sinal, e, em consequência, está claro que foi o dito cavalheiro que levou o cão para lhe fazer companhia, por se lhe ter feito tarde e ele temer algum assalto no caminho. Se bem que eu não consiga compreender para que queria ele o cão tendo revólver e sendo uma dama tão distinta que só pela sua presença impõe respeito.


Contudo, mando-te a carta, e se não és tu que tens a maleta de couro de porco, agradecer-te-ei que me digas a quem a emprestei, para reclamar na volta do correio. Teu amigo constante,


Ildefonso Leguizamo


T./c.: Avenida Gral. Huergo



(Conrado Nalé Roxlo)

sexta-feira, março 25

Dublinesca


Samuel Riba considera-se o último editor literário e sente-se perdido desde que se retirou. Um dia tem um sonho premonitório que lhe indica claramente que o sentido da sua vida passa por Dublin. Convence então uns amigos para irem ao Bloomsday e percorrerem juntos o próprio coração do "Ulisses" de James Joyce. Riba oculta aos seus companheiros duas questões que o obcecam: saber se existe o escritor genial que não soube descobrir quando era editor e celebrar um estranho funeral pela era da imprensa, já agonizante pela iminência de um mundo seduzido pela loucura da era digital. Dublin parece ter a chave para a resolução das suas inquietações. Neblina e mistério. Fantasmas e um humor surpreendente. Enrique Vila-Matas regressa com um romance que parodia o apocalíptico ao mesmo tempo que reflecte sobre o fim de uma época da literatura. Um romance deslumbrante, aberto às mais diversas leituras, uma verdadeira prenda povoada de surpresas. Simplesmente genial.

edição: Teorema

título: Dublinesca

autor: Enrique Vila-Matas

tradução: Jorge Fallorca

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 264

isbn: 9789726959519

pvp: 15.90€

quarta-feira, março 23

Um PS e um PSD


Um PS e um PSD que discutiam a posse de um Povo submeteram o caso ao julgamento de um FMI. Este, depois de ouvir uma longa argumentação, abriu a boca para proferir a sentença.

- Já sei qual vai ser a decisão – interrompeu o PSD. – Devido ao nosso fraco desempenho, o Povo não pertence a nenhum dos dois e serás tu mesmo a comê-lo. Permite-me que te diga que é uma decisão injusta, como provarei.

- Para mim – disse o PS – está claro que darás o Povo ao PSD, o PSD a mim e que tu ficas comigo. Já tenho experiência destas coisas.

- O que eu ia a dizer – disse o FMI, bocejando – é que, durante a argumentação deste caso, a propriedade em disputa pôs-se a andar. Talvez consigam arranjar outro Povo.

Nota: Inspirado numa fábula de Esopo.

Uma conversa difícil entre pai e filho


Um Caranguejo Lógico disse a seu filho:

- Por que não andas tu a direito? Esse teu andar de lado é particularmente deselegante?

- E por que não andas tu também a direito? – retorquiu o filho.

- Jovem equivocado – replicou o Caranguejo Lógico –, estás a introduzir na questão dados novos e irrelevantes.

terça-feira, março 22

Mãos ao ar!

De manhã cedo, depois de acabar de abrir a porta da livraria, entra um cliente com um sorriso enorme na boca e diz:

- Bom dia! Eu vinha levantar o livro que encomendei no outro dia.

- Com certeza. Não se importa de me recordar o título do livro que encomendou?

- How to Rob a Bank Without a Gun, de George Jenney.

- Ah! Recordo-me perfeitamente. O título chamou-nos imediatamente a atenção e até comentamos, entre nós, o engraçado que era.

Passado uns segundos:

- Ora aqui tem o seu livro.

- Quanto lhe devo? - pergunta o cliente.

- São precisamente 60 euros, sabe é um livro raro.

Repentinamente o cliente muda de expressão facial, deixa cair o sorriso e num movimento brusco, saca do bolso do casaco uma enorme pistola.

- Mãos ao ar, isto é um assalto!

O livreiro não se intimida e desata numa gargalhada:

- Ah, ah, ah, ah, tem muita graça. Todavia, devo recordar-lhe que o meu caro amigo está equivocado, o livro que encomendou é sobre assaltos a bancos sem pistola e não a livrarias com pistola, ah, ah, ah, ah.

O assaltante, sem achar graça nenhuma, responde:

- Pois é, de facto tem razão. Mas acontece que ainda não li o livro. E sejamos sinceros, o preço que me está a pedir por ele é igualmente um roubo.

segunda-feira, março 21

Ups! íamo-nos esquecendo de celebrar o Dia Mundial da Poesia.


«A única diferença entre o céu e o inferno é que no céu se lê poesia e no inferno explicam-na.»

livreiro anónimo

Sumidades

(Desenho Heinrich Kley)

Alguns críticos literários e outras sumidades intelectuais de vários quadrantes políticos e até literários haviam-se reunido em conselho. Fartos de verem o seu trabalho cair em saco roto, deliberaram que se deviam empenhar em espalhar a sua inteligência e sabedoria pelo povo, na persecução da elevação do gosto literário do grande público. Defendiam eles que, de uma vez por todas, era chegada a altura de acabar com o trash literário dominado pelos bestsellers de literatura light. Este princípio regia-se pelo slogan «People can not read what they want, but what we give them to read», criado em inglês, especificamente, para que as massas populares o repetissem como papagaios pelo mundo fora.

Havia já algum tempo que se dedicavam a esta tarefa, com empenho e dedicação. Os estrondosos efeitos destas medidas culturais faziam-se já sentir no mercado. A venda dos clássicos tinha aumentado, em apenas um ano, para o dobro, enquanto os bestsellers – que continuavam, no entanto, e em grande escala, a ser bestsellers –, tinham passado para metade.

Foi então que um eminente editor de grande superfície, levantando a mão – tal como fazem os meninos bem comportados diante de sua sumidade, o professor – e respeitosamente erguendo-se, perante a sala de audiências do conselho de críticos, pede permissão para falar:

- Meus caros amigos! Em meu nome e dos demais colegas de profissão, dos livreiros e distribuidores, peço-vos que desistais dos vossos intentos. Bem sei que as intenções são as melhores, que ganhais bom dinheiro, prestígio e benesses com este género de coisas, mas pensai só no dano que causais aos negócios dos outros!

Nota: Este texto foi inspirado em Esopo emendado & outras fábulas fantásticas, de Ambrose Bierce, edições Antígona.

Jaime Bulhosa

Mão Morta


O escritor de viagens com um bloqueio criativo; o pedido de ajuda que chega por carta; o jovem indiano que acorda no hotel com um cadáver ao lado; a remetente da carta, a enigmática viúva rica Senhora Unger; Calcutá, na sua atmosfera pungente, saturada de humidade e cheia de labirintos decadentes. E uma mão morta. O mais recente romance de Paul Theroux apresenta uma plêiade de personagens ricamente desenhadas, num caso de difícil resolução. É um fresco da Índia moderna, um "thriller", um devaneio erótico e uma reflexão sobre a idade e a perda da energia criativa.

edição: Quetzal

título: Mão Morta – Um crime em Calcutá

autor: Paul Theroux

tradução: Nuno Guerreiro Josué

formato: 15x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 358

isbn: 9789725649121

pvp: 18.44€

sexta-feira, março 18

Dedicatórias em obras literárias


«Além de não andar bom de saúde, estou sem cheta. E imperador por imperador, monarca por monarca, tenho em Nápoles ao grande conde de Lemos que, embora eu não ostente graus nem diplomas universitários, me mantém, me ampara e faz mais mercês do que as que posso apetecer.» Miguel de Cervantes (1547-1616), segunda parte de Dom Quixote de La Mancha (1615)

«Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.» Machado de Assis (1839-1908), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

«A Léon Werth. Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma desculpa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que tenho no mundo. Tenho outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender tudo, mesmo os livros para crianças. E tenho uma terceira desculpa: essa pessoa grande mora em França, onde passa fome e frio. Bem precisa de ser consolada. Se todas estas desculpas não chegarem, gostava de dedicar este livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes já foram crianças. (Mas poucas se lembram disso.) Corrijo, a minha dedicatória: A léon Werth, Quando ele era Rapazinho.» Antoine de Saint-Exupery (1900-1944), O Principezinho (1943)

«Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo.» Dedicatória de William S. Burroughs (1914-1997), no poema A Thanksgiving

«Para Vera e Alex e, é evidente, para o gato Benevides, que me deu tremendas lições de dignidade.» Mário-Henrique Leiria, (1923-1980), Novos Contos do Gin (1974)

«Ao Castor.» Dedicatória de Jean-Paul Satre (1905-1980) à sua inseparável Simone de Beauvoir, em A Náusea (1938)

«Ao meu Bibi.» Dedicatória de Boris Vian (1920-1959) à sua mulher Michelle Léglise, em A Espuma dos Dias (1947)

O Rei Faz Vénia e Mata


«Na língua da aldeia – assim achava eu quando era criança – as palavras estavam, para toda a gente à minha volta, pousadas em cima das coisas. As coisas chamavam-se exactamente como eram, e eram exactamente como se chamavam. Um acordo selado para sempre. Para a maior parte das pessoas não havia aberturas através das quais tivéssemos de olhar entre palavra e coisa e fitar o nada, como se escorregássemos para fora da pele em direcção ao vazio. Os gestos manuais do dia-a-dia eram instintivos, trabalho bem ensaiado sem palavras; a cabeça não seguia o caminho dos gestos nem tinha os seus caminhos próprios, divergentes. A cabeça servia para carregar os olhos e os ouvidos, que eram necessários ao trabalho.»

São estas as primeiras linhas de O Rei Faz Vénia e Mata, o livro de ensaios em que Herta Müller – vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2009 – faz uma espécie de «auto-radiografia» á sua escrita, levantando a ponta do véu que cobre as suas vivências e memórias pessoais e revelando a génese do seu próprio processo criativo.

edição: Texto

título: O Rei Faz Vénia e Mata

autor: Herta Müller

tradução: Helena Topa

formato: 15,5x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 181

isbn: 9789724742731

pvp: 17.90€

terça-feira, março 15

Hoje, na Pó dos livros

(para aumentar clique sobre a imagem)

Estamos todos à rasca



Setembro de 2007, abrimos as portas, e já nessa altura planava sobre nós o abutre. Nunca passava para cá da linha da porta. No entanto, rondava de perto, dava uma bicada, ou duas, nos nossos pés e ficava inquieto à espera que chegasse a hora fatal, grasnando num som surdo, como só os abutres sabem fazer: «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar».

Nós bem o tentámos enxotar para longe, mas ele voltava sempre. Olhava de viés, ao mesmo tempo que inspirava o ar, à procura de aromas de moribundo. Contudo, ainda não tinha chegado a nossa hora e, voou com notícias de defunto vindas de outras paragens.

Nos anos seguintes apareceu de novo, mas desta vez, acompanhado com mais amigos, urubus, corvos e outros necrófagos. Todos vestidos a rigor de plumas negras reluzentes, entoando já a marcha fúnebre de Chopim – tan, tan, taran, tan, tanran, tan tan –, «Quando é que chega o dia da liquidação total? Mais cedo ou mais tarde, todas as livrarias irão fechar». Porém, ainda não tinha chegado a nossa hora e voaram, outra vez, com notícias de defunto vindas de outras paragens.

E certamente continuarão por aí, até que alguém se lembre de pegar numa caçadeira e acabe de vez com os malditos.

Nota: Continuamos estoicamente a espantar os abutres e já tratamos da licença de porte de arma.

Jaime Bulhosa

Anedota de livreiro


No cinema, um homem ficou sentado ao lado de um cão. Do outro lado do cão está o dono do cão. O cão segue o filme com muito interesse. Late, quando é de rir, gane nas passagens mais comoventes. No fim, aplaude com as duas patas.

O homem inclina-se então para dizer ao dono do cão:

- Olhe que o seu cão é formidável! Como ele seguiu o filme! E como o apreciou!

- Pois – diz o dono. – Isso espanta-me tanto mais quanto ele não gostou nada do livro.

Conversas com Woody Allen


Eric Lax é o autor da mais conhecida biografia de Woody Allen. Neste livro divulga as mais reveladoras e divertidas entrevistas feitas ao realizador de Manhattan e Annie Hall. Ao longo de mais de três décadas, Woody Allen conversou regularmente com Eric Lax, permitindo-lhe um acesso sem precedentes aos seus locais de filmagens, pensamentos e observações. Em conversas entre 1971 e 2007, Allen discutiu sobre produção cinematográfica - os seus próprios filmes e o trabalho de realizadores que admira. Assim, este livro mostra a evolução de Woody Allen até aos dias de hoje (de escritor de comédia e comediante de stand-up a realizador famoso). Conversas com Woody Allen é, por isso, uma leitura essencial para quem se interessa por realização cinematográfica e para todos os que apreciam os seus filmes.

edição: Relógio D’Água

título: Conversas com Woody Allen

tradução: Carina ribeiro

formato: 15x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 452

isbn: 9789896412197

pvp: 20.00€

sexta-feira, março 11

Imbecilcopédia XXIV


The Direction of Hair in Animals and Man, Walter Aubrey Kidd, (1903).
Este é sem sombra de dúvida um dos livros mais excepcionais que me passou pelas mãos. Excepcional, não só pelo tema abordado mas também, diga-se a bem da verdade, por ser um daqueles livros que editores e livreiros gostam: um livro capaz de vender apenas pelo título e que nunca foi editado em língua portuguesa. Não entendo a distracção que existe nos editores portugueses quando passam ao lado de obras tão essenciais para o conhecimento humano.
Os fabulosos fenómenos descritos neste livro, terão no mínimo – acredito – influenciado, de forma indelével, a inspiração dos mais famosos cabeleireiros do mundo. E porquê? Perguntam os meus queridos leitores. Porque eles – entenda-se por eles, os fenómenos aqui estudados – são, como hei-de dizer, tão intrinsecamente desinteressantes e, sem qualquer importância que me faz pensar que são Homens como Walter Aubrey Kidd que empurram o mundo para a frente.
Todavia, se já ansiava por um livro que respondesse porque razão é que acorda de manhã com esse cabelo horrível, cheio de penachos e completamente indomável, para além de ficar a saber em que direcção crescem os pêlos, de leões, bois, cães, gatos, macacos, burros, mulas, cavalos, tamanduás, preguiças, entre muitos outros animais, então, poderá ter a certeza absoluta de que não sairá decepcionado com leitura deste livro.

Jaime Bulhosa

Última Paragem Massamá


Esta é a história de um homem e de uma mulher, Lucas e Vanessa. Do seu amor trágico, como são todos, e de uma Cidade com vista para muitas vidas. Também é a história de uma doença e de uma saída de cena, de uma frustração que não se cura. Ontem, na Floresta de Teutoburgo, onde fracassaram as legiões de Públio Quintílio Varo, hoje, em Massamá, onde acaba de ruir uma hipótese de redenção. Nos dois casos, o mesmo desenlace, com mais ou menos Império em pano de fundo. No lugar do traidor Armínio, motivado pela ambição, apresenta-se João, portador de um evangelho com saída para lugar nenhum. A estação de comboio, o trabalho, o vaivém daqueles que vivem de par em par com aquilo que lhes está destinado. O acaso. Crónica de uma, duas mortes anunciadas, a segunda por decisão natural de Vanessa, mulher investida de toda a autoridade. Faltam dois minutos e picos, 127 segundos, pouca-terra, pouca-terra, é só o que ela pede. Ou pelo menos que lhe seja leve.

edição: Quetzal

título: Última Paragem Massamá

autor: Pedro Vieira

formato: 15x23,5cm (capa mole)

n.º pág.: 207

isbn: 9789725649015

pvp: 14.95 €

quarta-feira, março 9

Uma Literatura muito especial...

Aviso Importante
Não fica reservado nenhum direito de propriedade literária ou artística do pauzinho. Pode ser pois reproduzido em qualquer parte e muito principalmente no Brasil. As contrafacções, porém, conhecem‑se facilmente. Hão‑de ser menos excitantes e mais sensaboronas. Pertencendo à escola ultra‑avançada em questões de propriedade, os editores aconselham às pessoas que puderem apanhar este livro por qualquer meio, compra, achado ou empréstimo (exceptua‑se a palmação) que lhe chamem seu para todos os efeitos e o não restituam para efeito algum.


Aos Caturras

«Vão gritar muito contra o pauzinho. Dirão que é imoral, que não tem graça e há‑de até parecer‑lhes perigoso. E contudo serão eles próprios, os pudicos, os castos, que hão‑de comprar o livro e lê‑lo de uma assentada. Não fizeram outro tanto a um romance — magnificamente belo na forma e na essência — que se publicou há pouco? Gritaram porém menos, unicamente porque na página 320 a luxúria desenvolta e livre se achava encoberta nas galas opulentas de um estilo soberbo, e porque mais adiante foram substituídas as três letras finais da palavra puta por umas discretas reticências. Talvez também contribuísse para lhes abrandar os ímpetos os reclames continuados que anunciaram a publicação deste e as reservas extremas com que aquele é dado à estampa. Já se sabe que não metemos em conta o mérito de um e a insignificância do outro. Quem se importa com isso! Por descargo de consciência, diremos, todavia, que o fim do pauzinho não é perverter, mas divertir. Composto para ser lido por homens, não vimos inconveniente em chamar as coisas pelo seu próprio nome, porque, afinal, digam o que quiserem, a porra há‑de ser sempre porra, muito embora lhe inventem nomes mais ou menos sonoros. E se ele for parar às mãos de alguma menina que, por excesso de ingenuidade, se apegue a ele como as velhas ao seu Santo António? Não será culpa nossa. Nós escondemo‑lo bem, elas que façam outro tanto: guardem‑no onde puderem e… regalem‑se com ele!»

Os editores


Título: O Pauzinho do Matrimónio. Almanaque Perpétuo
Autor: desconhecido
Ilustrador: Rafael Bordalo Pinheiro
Posfácio: António Ventura
Coordenador da colecção: António Ventura
Revisão: Tinta‑da‑china
Capa e composição: Vera Tavares
1.ª edição: Março de 2011
isbn: 978-989-671-076-7
pvp: 9.90€

Como se dão clisteres

«Ele contava já dezasseis anos e ela catorze, mas eram duas crianças, no sentir e no discorrer. Orfanado em tenra idade, Ricardo fora recolhido e educado na casa de uma generosa parenta, D. Eulália, viúva, a quem ficara uma filha, mais nova dois anos que Ricardo. Ricardina se chamava ela. Inteligente e boa como ele, era tão formosa como inocente. Criados em comum, quase desde o berço, surpreendeu‑os a puberdade entre bonecas e cavalos de papelão. No jardim, esbofavam‑se correndo um atrás do outro, atirando migalhas aos peixes vermelhos do tanque, ou tentando forças em luta infantil, à sombra dos caramanchões. Às vezes, fatigados de lutar e correr, adormeciam nos bancos do jardim, e era preciso que D. Eulália os despertasse para o jantar, maravilhada de tanta inocência e ventura. Chegaram as vésperas do Carnaval. Ricardo e Ricardina acordavam sempre a planear as partidas que mutuamente se fariam durante o dia e adormeciam pensando nos folguedos do dia seguinte. Um dia, Ricardina madrugou mais que Ricardo e entrou‑lhe no quarto, pé ante pé. Observou que Ricardo ainda dormia e não lhe ocorreu partida mais engraçada do que descobrir completamente o seu amigo, para que ele, acordando, soubesse que era Ricardina quem pregava as melhores partidas. Efectivamente, aproximando‑se do travesseiro, Ricardina ergueu cautelosamente a roupa da cama; mas ainda Ricardo não estava completamente descoberto, quando Ricardina, observando‑lhe quase todo o corpo, soltou um grito abafado, à vista do estranho espectáculo que a seus olhos se deparava pela primeira vez, e desapareceu por um corredor escuro. [...]»

Título: Entre Lençóis. Episódios Inocentes
para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras
Autor: Cândido de Figueiredo (sob pseud. Guilhermino)
Coordenador da colecção: António Ventura
Revisão: Tinta­‑da­‑china
Capa e composição: Tinta­‑da­‑china
1.ª edição: Março de 2011
isbn: 978-989-671-077-4
pvp: 9.90€

A Abrir

«Quantas dúzias de vezes se tem ventilado este assunto? Difícil, se não impossível, se torna dizê‑lo ao certo, pois que sem conto já são. No entanto é sempre novo, sempre palpitante, sempre da actualidade, pois que o vício nunca teve tempo ou idade, é sempre novo, sempre moderno. Vão morrendo as sacerdotisas já muito usadas como a Antónia Moreno, a Monteverde, as mais altamente cotadas; a Lavradeira e outras do vício baixo, se por acaso há altura numa coisa que começa e acaba sempre da mesma forma, seja no bordel da clássica meia porta, ou naquela a que dá ingresso a escada atapetada e as salas alcatifadas. Tanto ulula o vício num desconjuntado leito de ferro, que geme e chora a sua desdita ao mais pequeno solavanco,» como na cama à Luís XV, acobertado pela brancura nívea dos cortinados que, quem sabe, feitos às vezes para encobrir a nudez que um sonho indiscreto deixa profanar dum corpo de virgem, acabam por tapar, não o corpo da mulher que se vende, mas a vergonha do homem que a compra!... Já lá vai o tempo em que nesses templos de amor se queimavam não nuvens de incenso, mas montões de notas, aos pés das suas sacerdotisas; em que do vício se fazia um luxo caro, em que um sorriso, uma pequena carícia, um leve beijo, custava às vezes uma fortuna! Hoje não. O vício de hoje não tem a mesma subtileza daquele que há anos atrás tantos leões da moda arruinou, em que para bem amar era preciso bem jogar; nesse tempo quem com mais sangue frio deixava escorregar pelo pano verde das mesas de jogo, que sempre havia nesses templos, das 11 da noite até sol fora, era aquele que mais probabilidades tinha da vitória. O dinheiro ganho pela banca às algibeiras delas ia parar; não eram elas quem o pediam, isso era banal, eram eles que lho davam, perdendo‑o. A cocote chic de outro tempo não pedia nunca, ganhava sempre, ou numa nega forte da roleta, ou numa dama de porta quando carregado era o ás que não vinha senão tarde e a más horas. [...]»

Título: O Vício em LisboaAntigo e Moderno
Autor: Fernando Schwalbach
Coordenador da colecção: António Ventura
Posfácio: António Ventura
Revisão: Tinta‑da‑china
Capa e composição: Tinta‑da‑china
1.ª edição: Março de 2011
isbn: 978‑989‑671‑078‑1
pvp: 9.90€



Colecção Livros Licenciosos:
edições tinta-da-china

segunda-feira, março 7

II encontro livreiro

O Encontro Livreiro será o que todos nós quisermos que seja.
Queremos manter o seu carácter informal e de convívio e que, a pouco e pouco, se vá alargando a cada vez mais «GENTES DO LIVRO». Assim sendo, sugiro que cada um dos presentes no I Encontro, não só repita a sua participação, mas também garanta a presença de, pelo menos, mais dois ou três novos elementos. E que quem não pôde estar presente em 2010, o faça este ano e traga outro(s) amigo(s) também!

sábado, março 5

Orgulho Nacional


Oito horas da noite. Estávamos de carro na fila de trânsito, em silêncio, eu, o meu filho mais velho e o Vasco, o mais novo. Passava na rádio TSF o noticiário. Não prestei atenção ao que diziam, pois já tinha ouvido o noticiário das sete. De repente, naquele tom de voz meigo, mas ao mesmo tempo assertivo, que o caracteriza, rompendo a ausência de conversa, o Vasco comenta:
- Portugal até é importante!
Surpreendidos com o tema da afirmação, eu e o meu filho mais velho, em simultâneo, perguntámos:
- Aí sim... E porquê?
- Olhem! Vêm cá imensos cantores estrangeiros, muito conhecidos e, um dia, até veio O Presidente. – Referindo-se, suponho eu, a Barack Obama – Veio porque está muito preocupado connosco. Não sei se sabem... mas nós estamos falidos.

Muito me alegra saber que as referências que o meu filho tem, para sentir orgulho nacional, não sejam: Cristiano Ronaldo e José Mourinho.

Jaime Bulhosa

quinta-feira, março 3

Imbecilcopédia XXIII


Por vezes, a única, verdadeira e eficaz solução para a falta de cérebro é o silêncio: Em 1985, Dennis Newton foi a tribunal acusado de roubo à mão armada, na cidade americana de Oklahoma City. Quando o advogado de defesa, Larry Jones, pede a uma das testemunhas, neste caso a gerente da loja assaltada, para identificar o réu, logo que esta aponta para Dennis Newton, ele salta da cadeira, acusando a testemunha de ser uma grandessíssima aldrabona, mentirosa, gritando na sua direcção: «eu devia era ter-te dado um tiro no meio da testa!» Após um aturdido e prolongado silêncio, Dennis Newton senta-se calmamente e diz: «Claro, se tivesse sido eu... a ter estado lá.» O tribunal sentenciou-o a 30 anos de prisão.

Cadernos Blaufuks I e II

O Lugar do Morto


Se fosse possível pedir a Eça de Queirós uma crónica sobre a situação de Portugal nos dias de hoje, o que escreveria ele? O que pensa Machado de Assis acerca do presente Acordo Ortográfico? O que é que Vladimir Nabokov sempre quis que soubéssemos sobre Barack Obama?

José Eduardo Agualusa psicografou 24 escritores já falecidos - entre os quais Eça de Queirós, Vladimir Nabokov, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Jorge Luis Borges, Vinicius de Moraes, Sophia de Mello Breyner, Saint-Exupéry, Clarice Lispector, Padre António Vieira, João Cabral de Melo Neto e Camilo Castelo Branco - revelando as suas opiniões sobre assuntos importantes, ou não tão importantes, do nosso quotidiano. Vozes do Além, agora neste mundo. Escute-as.

edição: tinta-da-china

título: O Lugar do Morto

autor: José Eduardo Agualusa

formato: 14x21cm (capa mole)

n.º pág.: 162

isbn: 9789896710729

pvp: 12.90€

quarta-feira, março 2

A Lebre e a Tartaruga

«Eram dois escritores: um, brilhante mas indolente; o outro, monótono mas laborioso. Partiram os dois em busca da fama com igualdade de oportunidades. Antes de morrerem, o escritor brilhante figurava em setenta idiomas como autor de dois ou três livros de ficção e poesia, enquanto o outro constava no Departamento de Estatística do seu país natal como compilador de dezasseis volumes de informação tabelada sobre o porco doméstico.»

Milhões e milhões de anos depois, após evolução natural das espécies, onde naturalmente domina no planeta terra uma civilização de porcos, o escritor brilhante tinha sido esquecido por completo; enquanto o escritor laborioso tinha uma estátua em cada templo e, os seus dezasseis volumes transformados em Livro Sagrado.

Nota: Primeira parte da fábula inspirada na de Esopo, A Lebre e a Tartaruga, por Ambrose Bierce, no livro Esopo emendado & outras fábulas fantásticas, edição Antígona. A segunda parte da fábula, aumentada e corrigida por um livreiro anónimo, fiel à intenção do autor e texto original.

terça-feira, março 1

Péssima publicidade


Hoje no jornal o Público, no cabeçalho da primeira página, vinha esta frase:

Hitler: O ditador era um leitor fanático que lia um livro por noite.

Nota: Hum!... cheira-me a esturro. Não terá ele mandado queimar os livros errados?

Vingança

(desenho Heinrich Kley)

Um Agente de Seguros estava a tentar persuadir um Homem Difícil de Convencer a fazer um seguro para casa. Depois de o ter ouvido durante uma hora a descrever com vivacidade o grave perigo de o fogo lhe consumir a casa, o Homem Difícil de Convencer perguntou:

- Acredita mesmo que a minha casa arderá durante o período de validade da apólice?

- Sem dúvida – respondeu o Agente de Seguros –; não é disso que o estive a tentar convencer durante todo este tempo?

- Então – disse o Homem difícil de Convencer –, porquê tanto interesse em que a Companhia aposte no contrário?

O Agente de seguros ficou calado e pensativo por alguns momentos; seguidamente levou o outro até um lugar escondido e murmurou-lhe ao ouvido:

- Meu amigo, vou revelar-lhe um segredo terrível. Há alguns anos a Companhia atraiçoou a minha amada com promessas de casamento. Sob um nome falso consegui ser nela admitido com o intuito de me ver vingar. E, tão certo como haver um céu por cima de nós sugá-la-ei até à última gota de sangue!

Bierce, Abrose, em Esopo emendado & outras fábulas fantásticas, Antígona 1996