quinta-feira, maio 10

Desabafo



«Morto entre os vivos e vivo entre os mortos». É assim que um livreiro se sente durante a Feira do Livro. Qual foi o mal que os livreiros fizeram para serem castigados por uma concorrência tão desleal? Não criamos valor? Não damos emprego? Não pagamos impostos? Não divulgamos o livro? Porque que razão não se cumpre a lei da concorrência e do preço fixo na Feira do livro?
É fácil constatar que, nesta Feira do Livro, não há lógica, moral ou camaradagem. Porque é uma Feira onde não há leis, onde se praticam maiores descontos que na campanha do Pingo Doce e ninguém diz nada ou fica indignado com o dumping. É o valor que damos à cultura. Estamos a falar de uma Feira que não dignifica o livro nem os autores. Uma Feira do salve-se quem puder. Feira que não é mais do que o prenúncio de uma morte anunciada. 

Jaime Bulhosa

11 comentários:

Rui Vasconcelos disse...

É verdade! Curioso que as pessoas não pedem descontos num taxi, num restaurante, num bilhete de cinema, mas mal entram numa livraria... e quanto mais pequena for a livraria/alfarrabista, mais depressa pedem! Mas de quem será a responsabilidade?

Anônimo disse...

Pois eu tenho um pedido à Pó dos Livros. Já fui várias vezes á feira do livro (o ano passado tive lá uma banca, sem descontos para ninguém) e quero comprar o "Medo da Insignificância" de carlo Strenger da Lua de Papel. Se me arranjarem uma cópia, temos negócio.

Quanto à Feira do Livro, descontos de 80%! Não conheço nenhum outro ramo de negócio onde os produtores tratem tão mal os vendedores finais como na edição. E em especial em Portugal, onde nenhuma lei da concorrência parece valer o papel em que foi escrita. Este ano já vi livros com menos de 1 ano a 40%, violações sistemáticas à lei. Mas ainda hoje a Presidente da Assembleia da República fez uma visita oficial à Feira do Livro.

Uma tristeza.

Enfim. Tem toda a razão. Gritos de Ipiranga para muitas. O mais estranho é que com quem falo me diz que as vendas este ano estão melhores que o ano passado...

É mesmo o efeito dumping.

Cumprimentos,
Pedro Lérias

Pó dos Livros disse...

Pedro,

De momento não temos mas arranjamos.
Quanto ao resto é uma vergonha mesmo!

Cumprimentos

Fernando Frazão disse...

Prefiro as mercearias de bairro aos supermercados mesmo com 50% de desconto em feriados.

Anônimo disse...

Se me arranjarem a cópia, agradeço, vou passar um destes dias.

Obrigado.

Pedro Lérias

Anônimo disse...

Pois....
Eu não acredito que um livro que custa 36€ e que é vendido a 18 € na «tal de hora H» dê prejuízo à editora. Foi pelos meu lindos olhos que os "Irmãos Karamazov" custaram menos na feira do que na livraria?
Eu acho que o mal talvez resida na forma como está organizado o mercado editorial. O que é que, na realidade, estamos a pagar quando sai uma edição nova de um livro?

Anônimo disse...

o último segredo... http://www.youtube.com/watch?v=jxGt2A6atTo

Woman Once a Bird disse...

Caro anónimo, está a pagar o livro (direitos de autor, tradução, revisão, design de capa, paginação, impressão) a distribuição e o ponto de venda.
E agora pergunte-se que parte recebe uma editora quando um livro é consignado... é que do valor total são 40% para a editora, que paga tudo o que pus entre parênteses.

Pó dos Livros disse...

Woman Once a Bird,

Tem toda a razão, é isso que se paga quando se compra um livro na livraria ou noutro local de comércio. No entanto, quando se vendem os livros abaixo do preço de custo para o livreiro (o que é ilegal) durante vinte dias da feira, esquecem-se que criam no consumidor a ideia de que o resto do ano também é assim, isto é, criam a percepção de que o livro é barato. Depois não se queixem de não vender nos outros dias do ano. Este procedimento dá cabo da rede de livrarias independentes e qualquer dia os editores, se é que já não estão, ficam nas mãos de dois grupos de hipermercados.

jaime

Woman Once a Bird disse...

Caro Jaime, sei perfeitamente que para as livrarias pequenas também não é fácil. E o seu post tem toda a razão de ser. Aliás, o problema não está só nos moldes da Feira do Livro; pense-se por exemplo a prática de 10% de desconto em qualquer livro que determinadas cadeiras praticam.
Só quis que também fossem equacionados os pontos que expus e que raramente são pensados pela maioria dos/das leitores/as. Raramente se fala dos factores de risco a que uma editora está sujeita.

Pó dos Livros disse...

Woman Once a Bird,

Não é fácil para ninguém e para lhe ser sincero, em condições normais, as margens comerciais estão razoavelmente distribuídas pelos diversos agentes do livro. Talvez a distribuidora seja aqui o elo mais fraco e não o autor como se costuma dizer. Quanto aos factores de risco: eu sei que uma editora arrisca, no entanto, marca o preço e não é verdade que uma livraria não arrisque. Como deve saber o investimento para iniciar uma pequena livraria é 4 ou 5 vezes superior àquele que é necessário para iniciar uma pequena editora. Depois o livreiro também tem custos e não são poucos, nomeadamente os furtos que representam em média 3% da facturação e que representam vendas para o editor. Enfim, muito haveria para dizer de um lado e do outro. Penso que o importante é termos a noção de que somos dependentes, de uma maneira ou de outra, uns dos outros. Por isso, era importante não esquecer as regras do mercado, como tem vindo acontecer nos últimos anos nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto