terça-feira, abril 23

Dia Mundial do Livro



Hoje é Dia Mundial do Livro e… desculpem-me, mas não consigo festejar. Porque, ao mesmo tempo, em muitos anos, não se vai realizar a Feira do Livro do Porto. Porque, ao mesmo tempo, livrarias com décadas de existência estão a ser despejadas por causa de uma nova lei das rendas que é completamente cega. Porque, ao mesmo tempo, muitas livrarias tradicionais estão a fechar portas ou a caminho disso, contribuindo para a desertificação dos bairros, das cidades e para o empobrecimento do abastecimento espiritual e cultural daquelas zonas. Porque, ao mesmo tempo, existem centenas de jovens arquitectos desempregados e sem perspectiva de futuro profissional a não ser a de emigrar, apesar de existirem centenas de prédios vazios, com fachadas centenárias, lindas, a cair, literalmente, de podres. Porque, ao mesmo tempo, vejo jovens licenciados em Direito sem trabalho e uma justiça para ricos e outra para pobres. Porque, ao mesmo tempo, vejo os meus amigos, primos e irmãos ficarem desempregados aos cinquenta anos. Porque, ao mesmo tempo, vejo crianças que não têm em casa um único livro, mas pior do que isso, não têm uma refeição decente a não ser aquela que a escola lhes dá. Porque, ao mesmo tempo, vejo famílias inteiras a ser despejadas, separadas e a viver de favor em casa dos outros. Porque, ao mesmo tempo, vejo velhos e doentes sem dinheiro para se tratarem. Porque, ao mesmo tempo, vejo os políticos especularem com o dinheiro público, perderem-no aos milhões e não serem responsabilizados. Porque, ao mesmo tempo, vejo cada vez mais gente a mendigar nas ruas. Por isto, e muito mais, não posso celebrar o Dia Mundial do Livro, que é, ou deveria ser, um símbolo de liberdade, da liberdade de opinião, do veículo das ideias, da materialização das palavras. Porque é através das palavras que as revoluções se fazem. Porque é através das palavras que as mentalidades mudam. Porque é através das palavras que os direitos são conquistados, porque é através das palavras que nos devemos entender.

Jaime Bulhosa

8 comentários:

Jasmim disse...

é exactamente assim! ...tornamo-nos reféns dum tempo em que os estados e a vida das sociedades são vistos como empresas que têm de dar lucro. não importam os meios...

linda disse...

Parabéns, pelo texto Jaime - infelizmente, é mesmo assim, mas se não fossem os livros o mundo seria um 'lugar' muito pior.
Obrigada, Pó dos Livros, por existires

Linda David

stiletto disse...

Texto tristemente verdadeiro!

Sofia Ariadna disse...

Resista, Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros.

http://www.publico.pt/multimedia/video/novas-livrarias-obidos-20130421-172636?autoplay=1

O nosso último sopro é sempre o mais precioso e de alguma forma, não creio que esteja ainda perto do seu último.

Sofia Ariadna disse...

Resista, Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros.

http://www.publico.pt/multimedia/video/novas-livrarias-obidos-20130421-172636?autoplay=1

O nosso último sopro é sempre o mais precioso, embora eu acredite - sei lá eu porquê - que o Jaime ainda está longe do seu.

Pedro Carneiro disse...

Pelas mesmas razões me não sabe bem celebrar o 25 de Abril embora esta seja uma data para festejar. Mas os propósitos da dita Revolução desaparecem, ou melhor dizendo, caíram em saco roto. De tudo o que o Jaime escreveu eu não retiro uma vírgula. Teria só de acrescentar mais palavras cruas e desengraçadas. Melhores tempos virão? Sim ,mas para quando?

asminhasquixotadas disse...

Um texto tão verdadeiro e tão doloroso num dia em que se celebram os livros fazia uma certa falta. Porque no meio dos sorrisos e das celebrações a realidade é outra e, pensando bem nela como pensou, a vontade de celebrar torna-se muito menor.

Apesar de tudo, continuemos a amar os livros e fazer o nosso melhor para que, naquilo que nos é possível, as coisas mudem.

Anônimo disse...

Qualquer um de nós acrescentaria uma ou outra frase ao texto do Jaime Bulhosa.Uma vivência pessoal, talvez, para ilustrar com verniz o que li no texto do Jaime. Mas não importa acrescentar mais, está tudo dito por ele, embora saiba que este estado de coisas nos pertence por inteiro. Cabe-nos alterar o futuro deste pobre país. Senão, para que serve aquilo que lemos?