terça-feira, dezembro 15

Pensamento do dia


«Toda a minha vida procurei nos livros respostas para a curiosidade mais profunda. Tenho lido, muito até, mas não sei se tenho lido os livros certos. Parti para a leitura com o espírito aberto, perguntando: Qual é a resposta? Todos os livros fizeram silêncio. 
Vou mudar de paradigma e passar a perguntar: Qual é a pergunta?» 

Livreiro anónimo

As Leituras e as Estações do Ano


Não tenho nenhum estudo científico que sustente a sensação que tenho de que as pessoas lêem mais determinados temas de acordo com as estações do ano. Apenas constato isso através da análise que faço das vendas.

No Inverno: estamos mais predispostos a ler não-ficção, ensaio, poesia ou aquele clássico de quinhentas páginas que estava à espera na mesa-de-cabeceira, desde o Verão passado (para ganhar coragem).

Na Primavera: a ficção “leve” ou light, (como quiserem chamar-lhe) dispara no número das vendas, e todos os livros que falem de paixões, sexo, namorados, amantes ficam de repente na berra. Também os livros de auto-ajuda aumentam significativamente (para os que não conseguem acompanhar o chamamento primaveril da Natureza).

No Verão: a literatura de viagens, desporto, o romance para ler na praia.

No Outono: sem dúvida, os romances históricos são os mais vendidos. Os livros de direito são igualmente muito procurados nesta estação (necessitamos deles para nos tentarmos livrar das alhadas em que nos metemos nas duas estações anteriores).

No Natal: é uma quadra à parte, pois vende-se de tudo, mas não acredito que se leia tudo o que se vende.

Não fui o único a reparar nesta tendência, alguns editores (principalmente as que editam para as grandes massas) já o fizeram antes. É só estarmos com atenção ao tipo de livros que saem em cada estação e olharmos para as capas.

No Inverno: predominam as capas a preto e branco, as cores escuras, as paisagens de montanha com neve e chuva, as lareiras.

Na Primavera: as flores, as cores vivas, as mulheres bonitas, carros desportivos e vedetas de televisão.

No Verão: as praias, areia, corpos bronzeados, conchas e paisagens tropicais.

No Outono: as planícies e paisagens rurais, as árvores com as folhas a caírem, os verdes, castanhos. Monumentos e pinturas com temas históricos (não podemos esquecer que estamos na estação do romance histórico).

No Natal: é fácil – temos o Pai Natal.

Um editor que não tenha em atenção estes pormenores e que edite um romance com uma capa de Verão no Inverno, arrisca-se a só o vender na estação seguinte.
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Jaime Bulhosa

quarta-feira, novembro 25

Lançamento do livro Arte Nua, 27 de Novembro, pelas 18h

Sobre o autor:
Luís Viegas Mendonça nasceu em Lisboa, em 7 de Novembro de 1958. Iniciou-se na fotografia em 1974, como amador, tendo mantido essa atividade até hoje. De 1979 a 1983 trabalhou como fotógrafo profissional no Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto (fotografia médica). Simultâneamente, de 1981 a 1983, foi fotógrafo de moda para as Confecções Pulido e para a cadeia de lojas Chez Elle. Licenciou-se em Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em 1983.
Publicações
Tem várias fotografias publicadas em livros, em brochuras publicitárias e em revistas da especialidade. É co-autor dos livros “Olhar a Nú” e “Essência e Memória, Vol. IV – Antologia Luso-Brasileira de Fotografia Contemporânea”, ambos da Chiado Editora. Autor de um calendário para a Fashion World Models.
Distinções nos últimos 5 anos
Fotógrafo do mês, no site Modelos PT, em Agosto de 2010.
“Picture of the Day”, no site Model Mayhem, em 23 de Setembro de 2010.
Portfolio publicado nas revistas Hot Magazine nº 7 e Fashion World Models nº 16.
“Best nude picture of the day”, pelo site Fashion World Models, 32 vezes.
“Best black & white picture of the day”, pelo site Fashion World Models, em 26 de Março de 2015.
“Best hot/sexy shoot of the day”, pelo site Fashion World Models, 3 vezes.
“Best picture of the day”, pelo site Fashion World Models, 4 vezes.
“Daily Featured Member”, pelo site Model Bliss Net, 24 vezes.
“Weekly Featured Member”, pelo site Model Bliss Net, 3 vezes.
“Imagem do Dia”, pelo site Liquid Images, 4 vezes.
Biografia publicada na revista SoWhat Magazine nº 12, em Agosto de 2015.
O autor e a fotografia
Fotografa por paixão e com entusiasmo. Gosta do “preto e branco”, pelo ênfase da emoção e do sentimento alcançado. Considera a Arte Fotográfica como uma forma de expressão artística que provoca emoções e reflexões. As suas imagens são maioritariamente fotografias de nu artístico.

Gosta de fotografar a silhueta humana e a pessoa só. Gosta de acreditar que consegue registar, de forma simples e direta, imagens fotográficas de corpos onde a estética e a sensualidade transparecem.

segunda-feira, novembro 23

Talento


Não haverá nada pior para um “escritor” sem talento, do que ceder ao impulso irresistível da inspiração. É como sentir uma repentina e dolorosa cólica, correr para a privada mais próxima, deixar a imaginação livre e, só depois, aperceber-se de que não há papel para registar a sua obra.

Livreiro anónimo em reflexões autobiográficas.

sexta-feira, novembro 20

Saber enciclopédico


Uma pequena estória do tempo em que o acesso à informação não era tão fácil e rápido como hoje é através da Internet:

- Tem algum livro sobre a Vida?
O velho livreiro, prazenteiro, responde com a sabedoria que só as rugas do seu rosto permitem:
- Ó meu caro rapaz, todos os livros que temos são sobre a vida, mesmo os que são sobre a morte, ah, ah, ah. Lewis Grizzard, por exemplo, dizia que a vida é uma doença terminal sexualmente transmissível, ah, ah, ah. Truman Capote, dizia que a vida é uma peça de teatro, moderadamente boa mas com um péssimo terceiro acto e…
O livreiro é bruscamente interrompido, nas suas citações literárias, pelo cliente mal-humorado.
- Se é isso que tem a dizer sobre a Vida mais valia ter ficado calado.
O livreiro apercebendo-se que o cliente tem sempre razão, mesmo quando não tem, responde:
- Tem razão, sobre a Vida eu não sei nada. Faça-me só o favor de ser um pouco mais específico?
- O que eu quero, se for capaz de realizar o seu trabalho em condições, é apenas que me indique um livro, e não a sua opinião, que me dê uma definição concreta, corpórea, palpável, definitiva, sobre a Vida e nada de citações literárias, mais ou menos vagas, de poetas ou escritores. Não sei se percebeu… ou terei vindo ao sítio errado?
- Não, acertou em cheio, senhor. Deseja uma definição sobre a Vida, tipo enciclopédica?
O cliente, como se tivesse visto a luz, exclama:
- Isso, até que enfim!
- Bem, temos aqui na livraria a Enciclopédia Britânica, melhor não pode haver. Esteja à vontade, a casa é sua.
O cliente pega num dos pesados volumes da enciclopédia, agarra um monte de folhas, abre-o numa das páginas correspondente à letra L, percorre com o dedo indicador as várias entradas, até que encontra a palavra desejada, Life.
Life: «There is no generally accepted definition of life».
(Encyclopedia Britannica)

Jaime Bulhosa

terça-feira, novembro 17

O eterno marido



- Tem o livro, O Eterno Marido, de Dostoiévski?
- Tenho sim. É para oferta?
- É para oferecer ao néscio do meu marido. E vai com dedicatória! Não sei se me faço entender!?... – Diz a senhora, sorrindo maliciosamente.
- Com certeza! – Digo eu, sem fazer mais perguntas.

Nota: para quem não leu o livro o «eterno marido» é aquele tipo de homem que por mais que seja enfeitado é sempre o último a saber.

segunda-feira, novembro 2

Vamos dar cabo da Literatura

Mário de Carvalho é um dos autores mais conceituados da literatura portuguesa contemporânea. Com uma obra vasta e versátil, é contista, dramaturgo, romancista, cronista e ensaísta. Provocante, irónico, tem todas as qualidades necessárias para “dar cabo da literatura” e pôr-nos a pensar nela. Escritor que viveu na pele a ditadura de Salazar, perseguido e exilado, figura incontornável da cultura portuguesa da actualidade, tem histórias para nos contar e encantar. Esta é uma iniciativa que se inscreve nas actividades do PEN Clube Português.
Na Livraria Pó dos livros, dia 4 de Novembro, pelas 18.00, à conversa consigo.

terça-feira, outubro 20

Floresta virgem

Ilustração de A. de Pinho

Nota: Resposta encontrada dentro de um livro escolar antigo de Ciências da Natureza:

Pergunta: O que entende por Floresta Virgem?
Resposta: A Floresta virgem é uma floresta que nunca foi penetrada pelo o homem.
Certo!

segunda-feira, outubro 19

O Princípio Moral e o Interesse Material



Encontram-se, um dia um Princípio Moral  e um Interesse Material, no leito duma ponte tão estreita que só podia dar passagem a uma pessoa de cada vez.
- De rastos, vil criatura! – gritou, tonitruante, o Princípio Moral. – De rastos, para que eu te possa passar por cima.
O Interesse Material limitou-se a fitá-lo bem nos olhos, sem proferir palavra.
- Bem – admitiu o Princípio Moral, num tom hesitante – tiramos à sorte, para sabermos qual de nós dois deve recuar até que o outro haja passado a ponte.
O Interesse Material continuou sem abrir boca e a fitar o seu interlocutor.
- Para se evitar um conflito – parlamentou o Princípio Moral, não sem certo mal-estar – vou estender-me no chão e consentir que o senhor passe por cima de mim.
Foi então, que o Interesse Material tomou a palavra para afirmar:
- Pois eu penso que você não é bom piso para mim. Sou muito exigente quanto ao que calco aos pés. Acho melhor que se atire ao rio.
E assim se fez.   

Ambrose Bierce

quarta-feira, outubro 14

uma em mil



- Bom dia. Tem algum livro daquele filósofo... não me lembro do nome, que escreveu sobre Ética?
- Não leve a mal, mas há dezenas, se não centenas de filósofos que escreveram sobre Ética. Essa é uma pergunta espinhosa.
- É isso mesmo! Espinosa, Bento de Espinosa. 

segunda-feira, outubro 12

Os loucos


A livraria atrai todo o tipo de pessoas, escritores, poetas, crianças e claro… loucos. Num fim de tarde, um louco, com cara de louco, entra na livraria e pergunta:
- Tem livros sobre baratas?
O livreiro desconfiado:
- Baratas!?...
- Deixe que lhe explique. Eu sei que você não vai acreditar e é provável que me ache louco, mas tenho uma barata em casa que fala comigo.
- Pelo contrário, acho até bastante interessante. E digo-lhe mais, ultimamente também tenho falado com uma, até lhe dei o nome de Kafka!
Ainda o livreiro não tinha terminado a frase e já o cliente meio apavorado fugia porta fora...

Jaime Bulhosa

terça-feira, outubro 6

Poesia


«Um dia um poeta francês foi apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado e emproado personagem perguntou ao poeta:
- Para que serve a poesia?
E o poeta respondeu-lhe:
- Para o senhor, não serve para nada.»

Anónimo

terça-feira, setembro 29

Paradoxo

- Pai, o que é um Paradoxo?
- Diz-me uma coisa. Gostavas de viver muito tempo?
- Sim, claro que sim.
- E de ficar velho?
- Não!

Jaime Bulhosa

quarta-feira, setembro 23

Uma carta muito anotada, ou um imbróglio esclarecido


A má memória não é senão preguiça mental. Fazendo um pequeno esforço, todas as coisas podem ser recordadas, como se aprende do teor da presente carta.


Senhor José Ramírez.

Querido amigo: Lamento incomodar-te, mas estou a fazer o inventário da minha casa, para me mudar, e notei que me falta um livro que te emprestei. Não me recordo ao certo se era «Gustavo, o estroinas», de Vítor Hugo, ou «A Noiva do Herege», de Plutarco, mas, em suma, era um livro de tese. Agradecer-te-ei muito que mo remetas.

Desejando que te encontres bem de saúde, na companhia dos teu, abraça-te este teu amigo,

Afonso Leguizamo

T./c.: Avenida de Maio, 725 – 6.º andar

P.S. – Estimado José: Rogo que desculpes a minha má memória, mas no momento de fechar esta recordo-me de que o que te emprestei não foi um livro mas sim um globo terrestre, para que mostrasses à tua esposa que a Turquia asiática não ficava na Austrália, como ela dizia, baseando-se em que era professora diplomada. Espero que mo envies em carta registada o mais cedo possível.

Teu,

Ildefonso Leguia

T./c.: Avenida do Trabalho, 527 – 9.º andar

Nota importante: que cabeça a minha, senhor D. Josias Martinez! Dê por não escrito tudo que vai atrás e desculpe-me o tratamento por tu, visto mal ter a honra de conhecê-lo. O caso é que aquilo que tive o prazer de lhe emprestar foi um sobretudo de dupla face, na noite em que V. Senhoria veio a minha casa propor-me um desafio no campo de honra, como representante do doutor Sócrates Ângulo, porque, devido a uma distracção, arrastei a esposa dele uns vinte metros, agarrando-a pelo colar, na crença de que o fazia ao meu cão Tom.

Queira perdoar, cavalheiro, e mande-me o sobretudo porque faz falta agora que estão a apertar os calores.

S.S.S.

Afonso Leguizamón

S./c.: Avenida Marginal, 6 – 725.º andar

P.S. – Graças a Deus, tenho muito boa memória, pois de contrário não entenderias a minha carta. A verdade é que, quanto ao isqueiro, podes ficar com ele, pois a minha mulher ofereceu-me outro melhor e não como esse é, que não acende nunca. O que farás o grande favor de devolver-me é o pau de bandeira que te emprestei por ocasião da vinda cá do Príncipe de Gales ou do Getúlio Roosevelt, não estou agora bem recordado. Estas falhas de memória são devidas ao facto de andar muito preocupado com pensamentos relativos ao enlace que vou contrair com a que há-de ser a minha eterna companheira.

Não vivo na Avenida Roque Sánez Peña, como te dizia na minha anterior, mas na Avenida Quintana. O número sim que é o mesmo: 275, morada 6.

Teu amigo de sempre,

Afonso Leguizamón

Nota indispensável: Distinto senhor D. Jesualdo Ramos: Rogo-lhe que rasgue esta carta sem a ler, pois deslizaram-me nela algumas «gaffes» sem importância mas que poderiam criar desagradáveis mal-entendidos entre nós. As coisas passaram-se assim: Veio aqui o senhor pedir-me que lhe emprestasse trezentos «pesos», por motivo do falecimento de sua esposa, e vi-me na necessidade de recusar-lho pela simples razão de o senhor ser tão solteiro como eu. Por isso, se de facto o senhor pensou em restituir-mos no prazo estipulado, apresso-me a dizer-lhe que o não faça, porque estamos quites.

Saúda-o atentamente,

L. Alfonso

S./c.: Avenida das Constituintes, 572

P.S. – No momento de deitar esta carta na caixa reparo em que omiti um facto de certa importância, meu querido Pepe: os trezentos «pesos» eram só trinta, e emprestaste-mos tu quando a minha senhora teve um terçol. Se tos não restitui mais cedo foi porque me não recordei antes. Tão-pouco tos mando agora por razões que exigiam contos largos. Todavia, isto não empanará a nossa boa amizade e podes retê-los em teu poder até que isso te convenha.

Teu,

A. Leguina

T./c.: Avenida Alvear, 6 – aposento 275

P.S. – Caro Pedro: O que são as coisas da vida! Eu a reclamar-te o guarda-chuva, por culpa da minha má memória, e tu a dizeres: De que guarda-chuva se trata? Claro está que não se trata de guarda-chuva nenhum. Para mais, estava já muito velho e deixava passar água. Rogo-te que me desculpes e me devolvas a seringa de injecções que levaste na noite em que a senhora sua sogra teve aquele faniquito. Noutras circunstâncias não ta pediria, mas tenho uma éguazinha que, tenciono fazer correr em La Plata.

Teu amigo,

Aldonzo Leguineche

T./c.: Avenida, 9.º andar

P.S. – Agora reparo em que há aqui o que os ingleses chamam um «quiproquó». Bastarão duas palavras, senhor Jonas Ramalho, para pôr as coisas a claro. Não foi o senhor, precisamente, mas sim a um tal sr. Nepomuceno Barrenechea, a quem facilitei essa quantia na roleta de Mar del Plata, e tão-pouco foi a 16 de Fevereiro de 1932 mas sim em 15 de Janeiro de outro ano, creio que de 1937, data que tenho bem presente, por ser o dia em que completei quarenta anos de idade.

Como se trata de uma importância tão insignificante, creio que não verá inconveniente em restituir-ma, pois trata-se de uma recordação de família que muito estimo.

Saúda-o cordialmente o

Nepomuceno Barrenechea

S./c.: 725, 6.ª moradia andar 7.º

Nota: - Acabo de ler detidamente esta carta, estimado José, e verifico claramente, pelo que se esclarece no segundo e no quinto post-scriptum, que não é a ti que eu devo remetê-la pela simples razão de que o que me receitou a teriaga, vem a ser cunhado de um sr. Ramalho, também José por tal sinal, e, em consequência, está claro que foi o dito cavalheiro que levou o cão para lhe fazer companhia, por se lhe ter feito tarde e ele temer algum assalto no caminho. Se bem que eu não consiga compreender para que queria ele o cão tendo revólver e sendo uma dama tão distinta que só pela sua presença impõe respeito.

Contudo, mando-te a carta, e se não és tu que tens a maleta de couro de porco, agradecer-te-ei que me digas a quem a emprestei, para reclamar na volta do correio. Teu amigo constante,

Ildefonso Leguizamo

T./c.: Avenida Gral. Huergo


(Conrado Nalé Roxlo)

segunda-feira, setembro 21

O ego


O salão principal do Palácio Nacional foi preparado especialmente para o receber. Não havia ninguém que faltasse, naquela comunidade, que fosse realmente reconhecido como alguém. Escritores, poetas, matemáticos, políticos, cientistas e muitos mais, inclusivamente os mais altos representantes de todos os credos religiosos; e só não estava o rei porque de uma república se tratava. De resto, toda a gente estava presente para assistir ao acontecimento cultural mais importante do século: o lançamento da última obra-prima do mais ilustre e afamado escritor vivo.
O orador de serviço toma a palavra, o papel tremendo nas suas mãos, tal era a importância do momento, e inicia o discurso. De maneira a homenagear tão importante e distinta personalidade da cultura, não poupa nos elogios (eu diria mesmo «encómios», que, como toda a gente sabe, é o mesmo que «elogios», mas dito de uma forma mais erudita) e chega mesmo a adjectivar a obra com palavras que não constavam do dicionário da Academia. Às tantas, a meio do discurso, atreve-se a dizer:

- Temos hoje entre nós o melhor e maior escritor desde que Homero escreveu a Ilíada e a Odisseia.
- Cá está, eu sabia! - Pensa o escritor para com os botões da camisa. - Já começaram as restrições.

Nota: Esta pequena estória foi inspirada num conto originário do Médio Oriente.
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Jaime Bulhosa

quinta-feira, setembro 17

Fazer opinião


O auto elogio arrepia-me, por outro lado, o sobejo de modéstia diminui-nos. A verdade é que a Pó dos livros é a livraria independente que mais seguidores tem no facebook. Já ultrapassamos os 50.000, para ser mais exacto 51.162. À primeira vista este facto não teria grande importância e parece uma futilidade. No entanto, 50.000 pessoas enchem um estádio de futebol. E segundo as estatísticas da página do facebook, por cada recensão de um livro, por nós colocada, cerca de 2500 pessoas, por todo o país, lêem-na. Desta forma, não entendo porque é que as editoras não têm um marketing dirigido para pequenos espaços. Dirigem-no apenas para as grandes superfícies. Claro, é óbvio, elas vendem muito, enquanto uma livraria independente vende muito pouco. Mas o que é que faz, de facto, vender um livro? O marketing? Sim, também. Mas não será o boca-a-boca mais convincente e duradouro de que qualquer campanha de marketing? Ainda para mais quando o público das livrarias independentes é constituído por leitores (no sentido tradicional), e não por consumidores de impulso de "produtos-literários". Ora, não serão exactamente os primeiros a fazer opinião? Fica a reflexão.

Jaime Bulhosa

O telefone toca


O Telefone toca:
Livreiro: Estou sim.
Cliente: Será que me pode ajudar. Eu estou à procura de um livro para a minha sobrinha. Ela tem seis anos e eu não tenho ideia nenhuma do que possa comprar.
Livreiro: Com certeza. Que tipo de livros ela costuma ler?
Cliente: Bem, a verdade é que não faço a mínima... Não a vejo muitas vezes. A minha irmã vive no estrangeiro e a menina só lê inglês.
Livreiro: Ok, qual é o nome dela?
Cliente: Sofia.
Livreiro: Ah, e que tal considerar a série do Dick King Smith, Sophie? Existe um título chamado Sophie’s Six.
Cliente: Ok, parece-me uma boa ideia.
Livreiro: Quer que verifique se o tenho em stock, tenho quase a certeza que sim.
Cliente: Não, não vale a pena. Vou encomendá-lo online.
Livreiro: Mas, mas… eu acabei de o recomendar.
Cliente: Eu sei e aprecio o que fez. É uma pena que a Amazon não tenha uma pessoa real a quem possa perguntar este tipo de coisas. Ainda bem que vos temos a vocês para nos aconselhar.
Livreiro: …!?

terça-feira, agosto 25

Não penses...



Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: O que é o bem? O que é o mal? Quantas coisas belas encontrei nos livros, a arte, a música, a amizade, o amor… No entanto, em tudo o que li, na ciência, na religião, na metafísica, na literatura, nunca encontrei uma resposta satisfatória para as perguntas: O que sou? Para que vivo eu? Como o devo fazer? O que é o mundo? Ou seja, «a causa primeira». Aliás, cada vez que as sumidades o tentam fazer, parece-me tão intricado, complexo, confuso, misturado, que as respostas se tornam absurdas. Dá-me a sensação de que todos falam ao mesmo tempo, muitas vezes, apoiando-se e louvando-se reciprocamente para que em ricochete, também os apoiem e os louvem; outras vezes irritando-se tentam gritar mais alto do que os outros – tal como num manicómio. Penso muitas vezes para mim: se não podes compreender o sentido da vida, então não penses, vive.
É, por vezes, nas coisas mais simples – digo simples, não básicas, não são necessariamente sinónimos – onde podemos descobrir as melhores explicações para a vida. Foi precisamente dentro de um livro, a Confissão, de Lev Tolstói, que encontrei uma pequena parábola – pequenas fábulas que tanto aprecio –, com milhares de anos, do tempo ainda dos rolos do Pentateuco, e que me parece exemplar para a explicação de como é a vida. Infelizmente, também ela não explica «o porquê da vida», e tenho a ligeira suspeita de que, em toda a sabedoria humana, não a vou encontrar:

Era uma vez um viajante apanhado na estepe por uma fera enfurecida. Tentando salvar-se da fera, o viajante saltou para um poço seco, mas viu no fundo um dragão que abriu as goelas para o devorar. O desgraçado não se atrevia a saltar para o fundo do poço para ser devorado pelo dragão; então, agarrou-se aos ramos de um arbusto bravo que crescia nas fissuras do poço e ficou suspenso. As suas mãos estavam a fraquejar e sentia que em breve tinha de entregar-se à morte que o esperava dos dois lados; mas continuava a agarrar-se e, enquanto teve forças para isso, olhou em volta e viu que dois ratos, um branco e outro preto, andavam em redor do tronco do seu arbusto, roendo-o de todos os lados. A qualquer momento o arbusto ia quebrar-se e o viajante cairia nas goelas do dragão. O viajante via-o e sabia que a sua morte era iminente, mas, enquanto ainda pendia dos ramos, procurou à sua volta, encontrou nas folhas do arbusto gotas de mel, chegou a elas com a língua e pôs-se a lambê-las.

Jaime Bulhosa

segunda-feira, agosto 10

Sherlock Holmes


Se existe um local para uma boa conversa sobre a realidade e a ficção, esse local é uma livraria. Poderia ser noutro local qualquer, porque em qualquer lugar e qualquer um pode confundir a realidade com a ficção. – A repetição da palavra qualquer é feia, mas arranjem lá melhor sinónimo. – Trabalhei com um colega que tinha medo de fantasmas e que dizia que as personagens dos livros se materializavam e o assombravam durante a noite, quando se encontrava sozinho na livraria. Eu acreditava nele, até tínhamos uma testemunha, um velho livreiro, que podia confirmar a veracidade das minhas palavras. Sim, porque eu gosto de dizer apenas a verdade. Porém, infelizmente essa testemunha já morreu; mas quando lhe perguntávamos se acreditava em fantasmas das personagens dos livros, ele respondia-nos: «Sim, já vi tantos que deixei de acreditar neles.» Bem, deixemo-nos de rodeios e sigamos de imediato para o relato deste peculiar acontecimento sobre a confusão entre realidade e ficção, entre dois amigos, algures… – e digo apenas «algures», porque nestes casos manda o bom senso não ser demasiado concreto. Basta dizer que, algures na cidade de LX, dois amigos conversavam animadamente sobre livros e o acaso ou o jeito fez com que esta história se passasse numa livraria; porque assim tinha que acontecer, ou não fosse o narrador um livreiro.
O primeiro dos nossos amigos, um jovem rapaz universitário, franzino, nem muito alto nem muito baixo, apresenta em relação ao segundo um aspecto nitidamente mais intelectualizado, talvez pelo facto de usar óculos (acessório quase imprescindível para quem quer ter uma aparência de inteligência superior). O segundo amigo, um rapaz um pouco mais novo que o primeiro, não é magro, também não é gordo, mas aparenta sê-lo, porque sobressaem nele, em vez de uns respeitáveis óculos, umas visíveis bochechas rosadas, num fácies de mujique, digno de qualquer conto de Dostoiévski.
O rapaz de óculos tem a honra de abrir o diálogo:
- Eh pá, estava a pensar em escrever um livro. O que é que tu achas?
O rapaz de bochechas não se mostra surpreendido com a pergunta e comenta:
- Se hoje em dia toda a gente escreve, porque não tu.
- E que tal um livro sobre Sherlock Holmes? Eu adorava ver a série da Agatha Christie, na televisão, quando era puto.
O rapaz de bochechas, pouco seguro, observa, receoso perante os óculos do amigo:
- O Sherlock Holmes não é da Agatha Christie.
- Como assim? - Pergunta o rapaz de óculos, muito espantado.
- Quero eu dizer que o Sherlock Holmes é uma personagem de um escritor chamado Arthur Conan Doyle.
- Tens a certeza?
- Claro que tenho, eu oiço imensas vezes o Moita Flores a falar na televisão.
- Está bem… pode ser que até tenhas razão. Mas isso não é impeditivo de eu escrever um livro sobre ele.
- Claro que não. Mas que tipo de livro é que tu queres escrever sobre ele?
- Uma fotobiografia.
- Ouve! - Diz o rapaz de bochechas, já impaciente. – O Sherlock Holmes não é real. É uma personagem de ficção. Entendes?
- De ficção!?... Mas eu fartei-me de o ver na televisão…
Jaime bulhosa

segunda-feira, julho 27

Horário de Agosto

Em Agosto encerramos aos domingos e no feriado, dia 15. 
Boas férias





sexta-feira, julho 24

Os livros, objectos insondáveis



Como as mulheres que andam sempre acompanhadas com as suas malas de mão, cheias de objectos estranhos tão insondáveis como tentar conhecer a razão por que Eva comeu a maçã e que levam os homens a tentar adivinhar para que servem, assim andava eu, enquanto criança, curioso por saber por que razão andava o meu pai sempre com um ou dois livros debaixo do braço. Carregava-os para todo o lado, nos transportes públicos, para o trabalho, para a sala de espera do dentista, para o futebol, para a praia, para a repartição de finanças, para a casa de banho, para a cama, enfim, para todo o lado. Perguntei-lhe a razão. Disse-me: «A qualquer altura do dia pode surgir um momento, uma necessidade, um tempo livre para ler.» E acrescentava: «Quem gosta de se instruir nunca é ocioso. Ler é a melhor forma que conheço para confirmar a primeira e evitar o segundo».

Jaime Bulhosa

quarta-feira, julho 22

O aprendiz de livreiro


Há 40, 50 anos, não é necessário recuar mais no tempo, muitos rapazes e raparigas de 13, 14, 15 anos ainda eram desterrados involuntariamente dos seus lares nas longínquas aldeias da província para virem trabalhar na Grande Lisboa (faço ideia do medo que alguns sentiram). As raparigas iam para casa dos Senhores, servir como criadas internas. Os rapazes não, servir em casa particular era um trabalho para mulheres e muito mal pago, além disso, poderiam pôr em causa as virtudes das filhas dos Senhores. Por isso, vinham trabalhar ao mesmo tempo que aprendiam um ofício de sapateiro, carpinteiro, alfaiate etc. Também acontecia irem trabalhar para livrarias. No entanto, esta profissão normalmente requeria uma maior formação que na sua grande maioria estes rapazes não possuía. A formação posterior que adquiriam era, quase sempre, aquela que os Senhores ou Patrões entendiam oferecer-lhes.
Segue-se um pequeno episódio sobre um desses miúdos que veio nos anos 60 trabalhar para uma Livraria do Chiado:

- És tu o sobrinho do Manel?
- Xou xim, xenhor Armando.
- Como te chamas e que idade é que tens?
- Xico e tenho 14 anos, xenhor Armando.
- O teu tio disse-me que lá na tua terra te tinham ensinado as primeiras letras, é verdade?
- É xim, xenhor. - Disse o Xico vacilando a voz.
- Sabes, para se aprender a ser livreiro é necessário saber de letras.
- Xei xim, xenhor. - Afirma, disfarçando a voz cada vez mais trémula.
- Óptimo! Então tenho aqui um trabalho simples para tu fazeres.
- Tudo o que o xenhor mandar.
- Estás a ver esta estante? É nela que vamos colocar os livros de poesia. Sabes o que é poesia?
- Xei xim, xenhor, é a mesmo coisa que as cantigas, xó que falado.
- Pois é… mais ou menos, mas agora não interessa. Estás a ver estes livros aqui no chão? Vais ter de os arrumar na estante por ordem alfabética do último nome do autor, isto é, pelo apelido. Já agora, qual é o teu apelido?
Xou xó Francisco Zé*.
- Ah!... Mas entendeste o que eu te pedi?
- Xim, xenhor, por ordem alfabética de letra.
- Isso! Quando acabares vai chamar-me para eu ver o que fizeste.
- Xim, xenhor.
Passado um bom par de horas, o Xico, orgulhoso do seu trabalho, chama o senhor Armando.
- Vamos lá ver isto, então. Sim senhor: “A” de Carlos Drummond de Andrade, a seguir temos o “E”!?... Então, Xico, o que é isto!?... Desde quando é que a seguir ao “A” vem o “E”?
Tiritando por todos os lados, o rapaz responde:
- Xim, xenhor, “aeiou”, como me enxinaram.

* Naquele altura não era muito frequente, mas algumas pessoas não tinham apelidos, principalmente os filhos bastardos.

Jaime Bulhosa

terça-feira, julho 14

A leitura e o paraíso



Um jovem via que um velho consagrava todas as horas da sua vida à leitura.
Lia sem cessar, dia e noite, e quando lhe perguntavam a razão dessa perseverança, ele respondia:
- Leio para um dia chegar ao paraíso.
Anos mais tarde, depois de o velho ter morrido, o jovem, ele próprio já maduro, iniciou uma grande viagem em busca da verdade. Como era costumeiro neste tipo de viagens, passou por duras penas, por regiões estéreis e espinhosas. Encontrou gatunos de muitas espécies, monstros, precipícios, enigmas e tentações.
Tão forte era o seu desejo de verdade que pôde transpor todos os obstáculos e chegar enfim, mesmo no cimo de uma montanha, a uma gruta onde o esperava a revelação suprema.
Entrou e, com alguma surpresa, encontrou nessa gruta o velho cuja reputação terrena, entretanto, tinha atingido o próprio grau de santidade.
Ora, na gruta o ancião continuava a ler. O outro aproximou-se respeitosamente e perguntou-lhe:
- Então o paraíso é aqui?
- É aqui.
- E continuas a ler?
- Continuo.
Então passaste toda a tua vida terrena a ler para chegares ao paraíso e, realizado o teu voto, continuas a ler?
- Como vês.
Então não lias só por ler?
- Sim – Disse então o velho –. Mas aqui compreendo, finalmente, o que leio e ainda é mais maravilhoso!

quinta-feira, julho 9

Sábado, na Pó dos livros

No próximo Sábado, 11 de Julho, às 16h30, venha à pó dos livros, conhecer o novo livro de poesia de Isabel Aguiar A Língua de Esperanto dos Pássaros, edição Labirinto. Maria João Cantinho fará a apresentação da obra

(clique sobre a imagem para ampliar)

Imbeciclopédia XIV


Entrei numa loja de chineses (um mundo de coisas ao preço da chuva) para comprar um porta-chaves que estava a precisar para juntar umas chaves suplentes que andam espalhadas há que tempos pela livraria. Reparei num expositor de porta-chaves com antigos provérbios escritos em chinês. Não chegavam a custar um euro. De imediato, e aleatoriamente, escolhi um. Por curiosidade perguntei o que aquele provérbio queria dizer. O empregado que não sabia falar bem português resolveu traduzir para inglês:
- Cheap things are not good, good things are not cheap.
Chinise Proverb
Ele riu, eu também.

Jaime Bulhosa

quarta-feira, julho 8

Como irritar um livreiro


Entra e fica especado como uma estátua, olha em redor, da esquerda para direita, de cima para baixo, coça a cabeça e pergunta:
- Isto é uma livraria?
O livreiro, meio atónito, responde:
- Sim, é uma livraria.
- Óptimo! Então queria um maço de tabaco, umas fotocópias e já agora 2 euros no euromilhões.  

terça-feira, junho 30

Os melhores 10 contos

É comum os editores dizerem que os livreiros não gostam de livros de contos e é por isso que os contos não vendem e se editam tão poucos. Não são os livreiros que não gostam de contos, talvez seja o público que não goste de contos. Eu adoro ler contos. Os contos são curtos, directos e sem rendilhados e alguns têm mais conteúdo numa página do que muitos romances em centenas de páginas. Pensei fazer uma lista dos melhores contos que li, num exercício puro de memória, aqueles que ficaram registados na minha cabeça por qualquer motivo que não sei bem explicar porquê. Uma lista dos melhores é sempre subjectiva, muitas vezes inútil e sem interesse, porque o universo de escolha é enorme e ninguém pode vangloriar-se de que leu tudo para seleccionar os melhores. Contudo, é através das referências de outros que vou descobrindo mais e mais contos para ler. Deixo aqui, para quem me quiser dar crédito, a lista dos melhores dez contos que li:

1.º - Bartleby, Herman Melville

2.º - O Capote, Nikolai Gogol

3.º - O Alienista, Machado de Assis

4.º - O Poço e o Pêndulo, Edgar Allan Poe

5.º - A Tortuosa Esperança, Villiers

6.º - O Duelo, Anton Tchekhov

7.º - O Nariz, Nikolai Gogol

8.º - O Ovo de Cristal, H. G. Wells

9.º - Passeio Nocturno, Rubem Fonseca

10.º - O Sacristão, Somerset Maugham

Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 29

Mais vale parecer do que ser.



Uma senhora procura na Pó dos Livros um livro muito falado na televisão.
- Esse não tenho. – Diz o livreiro identificando de imediato o livro pretendido –. Mas tenho outro do mesmo autor.
- Do mesmo autor!... – Diz a cliente com ar desconfiada – Está bem, mas não pode ser muito grosso porque eu não gosto de ler. Tenho lá em casa vários livros do Lobo Antunes que não leio porque são muito grossos. Não sei se já lhe disse que não gosto de ler?
- Sim, já me disse, mas não se preocupe que este é bem fino.
- Pode ser esse, então.
Não sei se inquieta com o que o livreiro pensava, a verdade é que a senhora atira com esta antes de se retirar:
- Não julgue que não tenho livros em casa só porque não gosto de ler. Tenho lá uma estante cheia, maior que esta, e com livros dos bons!

sexta-feira, junho 26

leitura e o amor romântico


Não sei se é do sol, se é das férias, a verdade é que nesta altura do ano há um aumento substancial pela procura de livros sobre relações românticas. Ainda há pouco, um rapaz na casa dos vinte anos veio em busca de aconselhamento. Queria um livro que o ajudasse a melhorar a sua relação com a namorada - admirei a sua coragem -. Queixava-se ele que discutiam muito, mas que a culpa não era dele. Ela era, simplesmente, uma grande chata! Não me pareceu um bom princípio, nem que entendesse a extrema complexidade da mente do sexo feminino versus a simplicidade e estímulos visuais para que tudo funcione bem com o sexo masculino. Precisava, de facto, de ajuda, por isso aconselhei-o a ler um livro com um título sugestivo: «Um Amor Para Sempre – Estratégias e conselhos para iniciar, manter e enriquecer a sua relação». Ficou bastante entusiasmado e disse-me que era mesmo disso que precisava, porque a amava muito e queria ficar com ela para sempre. Achei bonito! Depois, perguntou-me se lhe alugávamos o livro. Sem dúvida, pensei eu, um caso grave de falta de leitura. Todavia, senti que o estava a enganar. Para «sempre» é coisa que quase nunca sucede numa relação. Enfim, deixai-o sonhar!
Sugiro, então, se estiver loucamente apaixonado e deseja exaltar o seu amor, leia poesia e literatura, pode ser a Ilíada ou a Odisseia. Está tudo lá, todas as experiências e vivências do amor - se bem que qualquer coisa com mais de três páginas pode ser uma estafa para um louco apaixonado -. Eles deviam saber que o estado intenso de paixão leva os homens e as mulheres aos actos mais insanos, como o suicídio ou a guerra. Basta recordar o exemplo da guerra de Tróia. Estarmos apaixonados é como uma cegueira temporária, uma pedrada de heroína ou cocaína. Na prática estamos completamente, drogados ou bêbados. O pior é que é exactamente neste estado que os amantes decidem casar. Ora, ninguém devia ter permissão para celebrar um contrato completamente alcoolizado. Não acham?
Porém, se o seu ardor se acalmou e quer entender a maneira como evoluiu a sua relação, leia psicologia e biologia, depressa vai entender que a paixão é efémera e que não passa de um pouco mais de que um conjunto de reacções químicas no seu cérebro na busca do sexo, prazer e reprodução. Mas se acabou ou pensa acabar brevemente uma relação e está convencido de que vai passar bem sem amor, deve ler filosofia. Quando os filósofos gregos e romanos se apoderaram do amor romântico, em geral ou acabam por desprezá-lo ou por transformá-lo numa coisa completamente diferente. Não há como ler filosofia ocidental para acabar de vez com um casamento.
Em forma de conclusão é verdade que o apego aos outros e as relações podem provocar muita dor e confusão, como está bem demonstrado na frase de Jean Paul Sartre: «o inferno são os outros», mas também podem ser o céu. Digo eu!?.. 

Jaime Bulhosa

quinta-feira, junho 25

Ignorância



Diz um bom cliente, em tom de desabafo, ao mesmo tempo que coloca no balcão mais uns quantos livros:
- Sabe, quanto mais leio menos convicções tenho.
- Não diga isso...
- Garanto-lhe. Não sei porque compro e leio tantos livros.
- Não diga isso...
- Deixei de ter convicções. Olhe, é como dizia o filosofo: «Apenas tem convicções aquele que nada aprofundou».
- Não diga isso...
- Não só o digo, como afirmo: «Felizes aqueles que são ignorantes».
- Estranho…
- O que tem de estranho?
- Nada… apenas estava a pensar alto na última frase que acabou de me dizer.
- Como assim? Pergunta o cliente curioso.
- Não deve ser nada de importante… No entanto, a ser verdade o que diz, não acha que se veria por aí muito mais gente feliz?

Jaime Bulhosa

terça-feira, junho 23

Não saber o que dizer...



Cliente: (Segurando na mão uma cópia de «As Cinquenta Sombras de Grey»); Isto não tem nada de esquisito… pois não?
Livreiro: A senhora quer dizer… sexo?
Cliente: Não!... (sussurrando) – quero dizer Gays?
Livreiro: !?...

quinta-feira, junho 18

Bibliomancia

Desde os tempos mais imemoriais da História da Humanidade que os homens acreditam que o destino está escrito algures. E se está escrito poderá ser lido, e se for lido poderá ser reescrito, principalmente quando o que está escrito não lhes agrada. Foi partindo desta premissa que se desenvolveram as mais variadas técnicas de adivinhação, desde a Aritmancia (através dos números), Cafeomancia (através das borras do café), Capnomancia (através do fumo), Escatomancia (através das fezes), Onicomancia (através das unhas), etc. Enfim, um nunca mais acabar de técnicas adivinhatórias muito interessantes.
Para mim, a Bibliomancia continua a ser a melhor forma de adivinhar. Acredito que é através dos livros que o Homem tem mais hipóteses de prever o seu futuro.
Sobre este assunto, e não só, aconselho a leitura de um livro extraordinário, Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani, edições tinta-da-china.

Há muitos anos, algures numa livraria da cidade de Lisboa:
- É pá, esteve aqui um cliente que perguntou se nós tínhamos livros sobre Bibliomancia. Como eu não sei o que é, com vergonha, respondi que não tínhamos nada. Sabes o que é Bibliomancia?
- Sei, Bibliomancia é a adivinhação do futuro, através dos livros, nomeadamente dos livros sagrados, como a Bíblia ou o Alcorão, mas pode ser através de outro livro qualquer.
- Ai sim… e como é que isso funciona?
- Imagina que queres saber o que nos vai acontecer quando sairmos da livraria. Pegas num livro qualquer, pode ser este do Cocteau, pões a palma da mão por baixo, abres numa página ao calhas e lês um excerto, como este, interpretando-o:

Um jovem jardineiro pediu ao seu príncipe:
«Salva-me! Esta manhã, encontrei a Morte no jardim, e ela fez-me um gesto ameaçador. Quem me dera estar esta noite, por milagre, muito longe daqui, em Ispahan.»
O Príncipe emprestou-lhe o mais veloz dos seus cavalos. Nessa tarde, ao passear pelo jardim, o príncipe deparou-se com a Morte.
«Porque foi», perguntou-lhe, «que esta manhã fizeste um gesto ameaçador ao meu jardineiro». Respondeu a Morte.«Foi um gesto de surpresa. Espantou-me vê-lo longe de Ispahan, sabendo como sei que logo à noite terei de tomá-lo em Ispahan.»

- Ouve lá, a profecia que acabaste de ler é para mim que a oiço, ou para ti que a lês?
De repente, e ao mesmo tempo, os livreiros rodam a cabeça na direcção da porta, vendo quem entra, um silêncio de Morte instala-se entre os livros.
-
Jaime Bulhosa

segunda-feira, junho 15

No fim...



Esta é uma história contada por Tolstói, mas a sua origem perde-se algures no tempo das histórias contadas oralmente pela Europa Oriental.
Conta-se que um dia um Senhor generoso e grande proprietário disse a um homem pobre, seu servo e que lhe prestava serviços há muitos anos:
- Caminha tanto tempo quanto puderes e toda a terra que os teus passos tiverem circunscrito será tua para sempre.
O homem pôs-se imediatamente a caminho, tendo o cuidado de percorrer primeiro um círculo restrito que foi depois alargando a cada passagem por achar sempre pouco. Caminha dia e noite, cansava-se, mas a ambição tornava-se cada vez maior à medida que aumentava os seus domínios. E continuava cada vez querendo mais e mais, perdia até por vezes a noção do tempo e do espaço, mas não queria parar de caminhar.
No fim, caiu exausto no chão e morreu.
Quem o encontrou abriu uma cova com as dimensões exactas do seu corpo. Era a sua parcela de terra.

quinta-feira, junho 11

Esta é boa


As coisas que lemos:
Um Inglês quando se cruza com uma bonita mulher na rua, vê-a sem olhar para ela, não se volta e continua a vê-la correctamente no seu cérebro; um francês (e a maior parte dos latinos) as mais das vezes, quando se cruza na rua com uma mulher bonita, começa por olhar-lhe para as pernas, compara-as com resto do corpo a ver se tudo está de acordo, depois volta-se para colher uma mais completa impressão de conjunto e então, enventually, reconhece que afinal também tinha de ir para aqueles lados.
Daninos, Pierre, Os Cadernos do major Thompson, Clássica Editora (1957)

terça-feira, junho 9

Imbeciclopédia XI


A espécie mais perigosa de estupidez é uma inteligência aguçada.

Hugo Hofmannsthal


As coisas que lemos:

Diz-se que é de origem europeia e medieval o diálogo que se segue entre o senhor e o seu servo.

«Certo dia, dirigindo-se os dois, a pé, à feira da vila mais próxima e durante o caminho, ao avistar um monte de esterco, o senhor diz ao seu servo:
- Dou-te uma moeda se comeres aquela bosta.
O servo pensa, o máximo que a fama da sua pouca inteligência conseguia, e imagina tudo que poderia fazer com uma moeda. Sem muito se interrogar sobre o porquê daquela proposta, habituado a sacrifícios, aceita e engole, conforme pode, a bosta. O senhor dá-lhe a moeda e os dois continuam o seu caminho.
Contudo, o senhor reflecte e diz a si próprio que se limitou a perder uma moeda e não lhe pareceu que comer a bosta tenha feito mal ao seu servo. Ao avistar um segundo monte de esterco, o senhor pára e diz ao servo:
- Se eu comer aquela bosta, devolves-me a moeda?
- Está bem, combinado – diz o servo, sem pensar muito no assunto.
O senhor deita mãos à obra e, com grande sacrifício, resmungando, engasgando-se, engole a bosta até ao fim.
Continuaram os dois a andar. Passado uns minutos, o servo pergunta ao senhor:
- Já que vós, senhor, sois tão inteligente, não me podeis dizer a razão pela qual comemos aquela merda toda?»
Não se conhece, até hoje, a resposta do senhor.

segunda-feira, junho 8

Secção de auto-ajuda



Estava com a auto-estima a roçar o chão da livraria e, quase milagrosamente, um livro de auto-ajuda, que se encontrava ali mesmo, captou o meu olhar. O título não podia ser mais sugestivo e a promessa de salvação, irresistível: Melhore a Sua Auto-estima e Seja Feliz. De imediato o abri. Começava mais ou menos assim:

«Dialogue consigo mesmo»

Pensei para comigo:

- Quem?... Com esse idiota?

Jaime Bulhosa

quinta-feira, junho 4

Definições


Um homem que procura coisas num quarto escuro é um cientista. Um homem que procura num quarto escuro coisas que lá não estão é um filósofo. Um homem que procura coisas num quarto escuro e que exclama: «Encontrei!» é um religioso. O que lhe responde: «És capaz de largar o meu pé!» é um ateu. Aquele que por fim acende a luz e põe fim à baderna e perda de tempo é um agnóstico.

Livreiro anónimo agnosticamente confuso.

quarta-feira, junho 3

Está mais alguém aí fora?



Há biliões de anos atrás, no planeta Terra, a primeira molécula reprodutora terá exclamado: «Está mais alguém aí fora?» E assim terá nascido o sexo!
Com o sexo nasceu o amor romântico, a amizade e todos os outros tipos de relações interpessoais.
Não evoluímos muito desde esses tempos primordiais, como bem demonstram as redes sociais. Por exemplo, o sucesso do facebook baseia-se, essencialmente, nessa necessidade primária, incontrolável de nos fazermos ver e ouvir. Esta prosa não é mais do que a minha indigência por atenção. A verdade é que cada vez que publicamos aqui alguma coisa, pode ser apenas uma frase sentimental, uma fotografia ou destilação da raiva e do ódio, não estamos a fazer mais do que a chamarmos a atenção para nós próprios e a dizermos qualquer coisa como isto:
- Vejam como sou inteligente!
- Vejam como eu escrevo bem!
- Vejam como estou feliz!
- Vejam como sou lindo!
- Vejam como estou apaixonado!
- Vejam como os outros são estúpidos!
- Vejam como estou triste!

Depois esperamos que alguém responda. Basta um gosto. Melhor se forem muitos, melhor ainda se for um comentário elogioso ou uma partilha; até uma provocação ou um insulto é preferível à indiferença. Não temos "culpa", somos uns bichinhos sociais. É a biologia a funcionar quando, algures no nosso cérebro, os receptores da recompensa reclamam: «está mais alguém aí fora que me possa fazer feliz?!...»

Jaime Bulhosa

quarta-feira, maio 20

Livraria Preferida de Portugal



Está aberta a votação para a Livraria Preferida de Portugal. Não deixe de votar (link: Livraria Preferida de Portugal.)


segunda-feira, maio 18

Vender livros é esquisito


O negócio de vender livros é esquisito. Vendem-se livros aos milhões e a maior parte das pessoas não faz ideia do seu conteúdo, ou pelo menos, não antes de os comprar e ler. Estranho é constatar que autores, editores e livreiros, praticamente, não tenham reclamações.
Livreiro anónimo acabadinho de ler uma merd...

sexta-feira, maio 15

terça-feira, maio 12

Uma palavra vale mais.



[…]
- Já chegaste à parte em que ele canta?
- Não!?... – Mas rapidamente se recorda. – Ah, sim!
- Viste que bem que ele canta, com aquela voz rouca, mas ao mesmo tempo melodiosa? Não estava à espera que ele cantasse tão bem. E como toca! Arrepia só de o ouvir. É um amor lindo, não é? E como dança ela? Viste que bem? Formam um lindo casal?
- Sim, sim, lindo casal, mas não acho que ele cante assim tão bem.
- Não chegaste ao final, pois não?
- Não, ainda não.
- Vais ver que o final é imprevisível… Ela acaba por o deixar.
- Oh, coitado!
- Sim, mas ele tinha-a enganado. Vais ver o mal que ele se porta. Bonito e tão simpático que ele parecia.
- Sim, parece muito simpático, mas não o acho assim tão bonito.
- E a paisagem onde vivem, aquelas montanhas verdejantes e quase inabitadas, o azul do céu imaculado, as casas banhadas pela luz dourada do sol e o perfume a lenha queimada que sai pelas chaminés?
- Não tinha reparado nisso.
- E que maravilhosos são os vestidos delas, cheias de cores garridas e alegres. Sabes, naquele tempo viviam mesmo assim. É super realista, não é? O autor não põe nem tira nada. Estás a gostar?
- Mais ou menos, mas ainda não acabei de ver o filme. Talvez o acabe de ver hoje à noite, se tiver tempo.
- O filme!?... mas… eu estou a falar do livro.  

Jaime Bulhosa